Papa inicia sua visita a Camarões em meio à polêmica sobre preservativos

O Papa Bento XVI se reuniu nesta quarta-feira em Yaoundé com o clero de Camarões, onde o catolicismo é minoritário, no segundo dia de sua primeira viagem à África, já marcada por suas declarações contra o uso do preservativo na luta contra a Aids que afeta 22 milhões de pessoas neste continente.

AFP |

A agenda do Papa nesta quarta só incluía três compromissos: uma visita ao presidente camaronês Paul Biya, um encontro com os bispos do país e uma celebração com o clero local.

No entanto, devido à polêmica sobre o uso do preservativo e a Aids, Bento XVI manteve uma reunião pela manhã com jovens de uma associação de ajuda aos portadores do HIV, patrocinada pela comunidade católica Sant'Egidio.

Em sua reunião com os bispos camaroneses numa igreja de Yaoundé, Bento XVI os convidou a serem "os defensores dos direitos dos mais pobres" e a "incentivarem o exercício da caridade".

"Desta maneira, os fiéis podem captar concretamente que a Igreja é uma verdadeira família de Deus, reunida no amor fraterno, o que exclui todo etnocentrismo e todo particularismo excessivo e contribui para a reconciliação e a colaboração entre as etnias para o bem de todos", afirmou.

Bento XVI convidou a Igreja católica a "defender vigorosamente os valores essenciais da família africana" ante as conseqüências da "modernidade e da secularização na sociedade tradicional".

Também enfatizou a formação dos fiéis para resistir à "expansão das seitas e dos movimentos esotéricos e a influência crescente das formas de religião supersticiosas, assim como o relativismo".

O primeiro encontro de Bento XVI com a multidão será na manhã de quinta-feira, em uma missa ao ar livre no estádio Amadou Ahidjo de Yaoundé.

Na segunda etapa de sua viagem pela África, o Papa segue na quinta para Angola, um país de maioria católica, mas onde é crescente o fervor pelas seitas e os cultos evangélicos, como a brasileira Igreja Universal do Reino de Deus.

O início do giro africano do Sumo Pontífice se viu marcado pela polêmica por sua declarações sobre o uso de preservativos, quando afirmou, a bordo do avião em que viajava, que não se podia "solucionar o problema da Aids", pandemia devastadora na África, "com a distribuição de preservativos". "Ao contrário sua utilização agrava o problema", enfatizou.

Isso levou à reação de várias ONGs, como a camaronesa Movimento Camaronês pelo Acesso aos Tratamentos (MOCPAT).

"O Papa vive no século XXI?", questionou seu diretor, Alain Fogue. "As pessoas não vão fazer o que o Papa disse. Ele vive no céu e nós vivemos na Terra", acrescentou.

"Dizer que o preservativo agrava o problema da Aids vai contra os esforços dos últimos anos do governo camaronês e dos atores envolvidos na luta contra a Aids no país", afirmou ainda.

"Queira ou não, de cada 100 católicos, 99 usam preservativo. O Papa deve entender que a carne é fraca! Será que o Papa desconhecia, ao chegar a Camarões, que as pessoas soropositivas representam um número importante da população?".

O governo francês também manifestou nesta quarta sua "forte preocupação com as consequências" das declarações de Bento XVI.

"Apesar de não nos corresponder julgar a doutrina da Igreja, achamos que essas declarações colocam em perigo as políticas de saúde pública e os imperativos de proteção da vida humana", afirmou o porta-voz da chancelaria francesa, Eric Chevallier.

A ministra belga da Saúde, Laurette Onkelinx, se declarou "chocada e consternada" com as declarações do Papa e as reações também foram enérgicas entre os médicos.

O diretor da Agência francesa de Pesquisas da Aids e Hepatites Virais (ANRS), Jean-François Delfraissy, se disse "arrasado" pela mensagem "constraproducente" do pontífice.

Ao criticar a eficácia das campanhas a favor do preservativo, o Papa "enfatizou a educação e a responsabilidade", tentou explicar o porta-voz do Vaticano, o padre Federico Lombardi.

"Não se pode esperar desta viagem uma mudança de posição da Igreja católica em relação ao problema da Aids", destacou.

O Vaticano se opõe terminantemente a todas as formas de contracepção diferentes da abstinência e reprova o uso do preservativo, mesmo por motivos profiláticos (prevenção de doenças).

Já sob o pontificado de João Paulo II, a posição oficial da Igreja católica era a defesa da castidade, ou seja, a fidelidade no casamento e a abstinência.

nou-ema/cn/yw

    Leia tudo sobre: iG

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG