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Papa diz que Igreja está ferida, mas não fala sobre abusos

Por Philip Pullella VALLETTA (Reuters) - O catolicismo foi ferido por nossos pecados, disse o papa Bento 16 no início de uma visita de dois dias a Malta, neste sábado, mas ele evitou referir-se diretamente aos escândalos de abusos sexuais que afetam a maior igreja cristã do mundo.

Reuters |

O pontífice, de 83 anos, não mencionou os escândalos que vêm sendo revelados na Europa e nos Estados Unidos nem usou a palavra "abuso" em seus comentários a repórteres no avião para Valletta, a capital maltesa. Em Malta, dez homens que disseram ter sido vítimas de abusos cometidos por padres querem se encontrar com o papa.

O papa, natural da Alemanha, já se reuniu antes com vítimas de abusos na Austrália e Estados Unidos e poderia se encontrar com outras, disse o porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, mas não foi informado se ele iria fazer isso durante sua curta estada em Malta, uma ilha do Mediterrâneo.

Falando em italiano, Bento 16 disse que Malta, país em que 95 por cento da população é católica, ama a Igreja, "mesmo se este corpo estiver ferido por nossos pecados".

Lombardi disse a jornalistas que o papa estava se referindo dessa maneira aos muitos casos de abusos sexuais de crianças por padres em décadas passadas, que vieram à tona nos últimos meses.

Representantes de vítimas de abuso sexual ficaram desapontados com os comentários feitos pelo papa no avião.

"O papa tem de parar de falar de estupro e abuso sexual e de encobrimento por autoridades eclesiásticas de tantas crianças católicas usando vagas metáforas pastorais, estando a 30 mil pés de altura", afirmou Peter Isley, de uma entidade com sede nos EUA que reúne vítimas de abusos de padres.

"Ele precisa iniciar e participar diretamente de um processo aberto e transparente de responsabilização e reforma, com grupos de vítimas, autoridades da justiça criminal internacional e outros", declarou Isley à Reuters, por e-mail.

O próprio papa foi acusado de ter feito vistas grossas em 1980, quando era arcebispo de Munique, para o caso de um padre enviado para lá para uma terapia depois de abusar sexualmente de crianças, logo depois transferido para trabalho na paróquia.

O Vaticano negou que o papa soubesse da transferência.

Embora o papa não tenha mencionado o assunto em sua chegada, o presidente de Malta, George Abela,disse que padres algumas vezes "infelizmente vão para o caminho errado" e é "a obrigação da Igreja e até mesmo do Estado trabalhar lado a lado" para evitar abusos e punir os responsáveis.

Centenas de casos de abuso físico e sexual de jovens, em décadas recentes, estão vindo a público na Europa e Estados Unidos à medida que as revelações acabam encorajando vítimas que permaneciam em silêncio por muito tempo a expressar abertamente suas queixas.

Em sua referência indireta à crise de abusos, Bento 16 também mencionou o naufrágio de São Paulo, grande missionário dos primórdios do cristianismo, em Malta, há 1950 anos -- esse é o motivo da viagem do papa à ilha.

Do mesmo modo que o naufrágio levou o cristianismo a Malta, disse ele, "os naufrágios de nossa vida podem trazer o projeto de Deus para nós e ser úteis para um novo começo de nossa vida".

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