Em sua primeira visita oficial aos Estados Unidos, o papa Bento 16 criticou os bispos americanos pela maneira como trataram os escândalos de abuso sexual de menores envolvendo padres, afirmando que sua resposta à crise foi algumas vezes insatisfatória. Ao mesmo tempo, o papa colocou parte da culpa pela crise dos casos de pedofilia - pelos quais se disse profundamente envergonhado - na ruptura de valores da sociedade americana.

O papa disse esperar que o que ele chamou de "momento de julgamento" possa ajudar a purificar a Igreja.

As declarações de Bento 16 foram feitas na noite desta quarta-feira, em Washington, durante uma missa com a presença de centenas de bispos americanos.

"O que significa falar de proteção à infância quando a pornografia e a violência podem ser vistas em tantos lares através dos meios de comunicação amplamente acessíveis hoje em dia?", questionou o papa durante a celebração.

"Responder a essa situação não foi fácil e, como o presidente de sua conferência episcopal indicou, foi algumas vezes muito mal administrado."
Bento 16 se referia a declarações feitas antes pelo cardeal Francis George, de Chicago, presidente da Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos.

O cardeal americano havia dito que as conseqüências dos escândalos de pedofilia na Igreja Católica nos Estados Unidos e a maneira insatisfatória como o tema foi tratado pela hierarquia da Igreja "tornam tanto a fé pessoal de alguns católicos como a vida pública da própria Igreja mais problemáticas".

Os primeiros escândalos sobre abusos sexuais cometidos por padres nos Estados Unidos vieram a público em 2002.

Nos últimos anos, a Igreja Católica gastou US$ 2 bilhões em indenizações para as vítimas de abusos sexuais nos Estados Unidos, mas muitos ativistas criticam o suposto acobertamento dos autores de crimes, que teriam sido transferidos para outras dioceses, em vez de denunciados de imediato.

Durante o vôo que o levou aos Estados Unidos, o papa já havia abordado a questão. "É mais importante ter bons padres que muitos padres", disse Bento 16 a jornalistas. "Faremos o possível para curar esta ferida."
Visita
O papa, que completou 81 anos nesta quarta-feira, foi recebido na Casa Branca pelo presidente americano, George W. Bush, e por milhares de convidados, sob uma salva de 21 tiros e sob os cantos de "Parabéns a você".

Esta é a primeira visita de um papa à Casa Branca em 30 anos.

Bush, que em seguida partiu junto com Bento 16 para um almoço fechado com a participação dos 17 cardeais dos Estados Unidos, disse que a mensagem papal de que "Deus é amor" é necessária para evitar a disseminação do "fanatismo" e do "terrorismo".

Bento 16 respondeu afirmando que é um "amigo dos Estados Unidos", e pediu aos americanos que usem sua fé para inspirar "um diálogo sensato, responsável e respeitoso".

O correspondente da BBC em Roma, David Willey, que viaja com o papa, disse que Bento 16 evitou fazer qualquer referência direta à guerra no Iraque ou a atual campanha presidencial nos Estados Unidos.

No entanto, segundo Willey, o papa fez uma referência ao "trágico sacrifício de vidas humanas" causado por conflitos passados e, por conseqüência, pela atual guerra no Iraque.

O assuto foi discutido em uma reunião particular entre o pontífice e o presidente americano. Segundo a Casa Branca, os dois líderes manifestaram preocupação com o sofrimento da minoria cristã no Iraque.

Em uma declaração conjunta, eles afirmaram esperar por uma solução rápida para a crise no Oriente Médio.

Na declaração, também se referiram à "necessidade de uma política coordenada" de imigração.

À noite, foi realizado na Casa Branca um jantar de gala em homenagem à visita do papa - mas Bento 16 não compareceu, por causa da missa que celebrou em Washington.

O papa também vai visitar Nova York, onde deverá celebrar uma missa no Estádio dos Yankees e fazer um discurso na Assembléia Geral da ONU.

No domingo, Bento 16 deve visitar o local dos ataques de 11 de setembro de 2001.

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