Papa Bento XVI defende os direitos humanos em discurso histórico na ONU

O Papa Bento XVI fez um histórico discurso nesta sexta-feira na Assembléia Geral da ONU, em Nova York, no qual defendeu com ardor os direitos humanos e o multilateralismo com um apelo por mais diálogo entre as culturas.

AFP |

Vestido com a tradicional túnica branca, o pontífice de 81 anos de idade se dirigiu aos 192 membros das Nações Unidas, lembrando-os do dever de proteger seus povos contra o abuso dos direitos humanos.

"Todos os países têm o dever primário de proteger sua própria população de graves e constantes violações dos direitos humanos", disse Bento XVI, diante de uma assembléia lotada.

Essa foi sua primeira visita à sede da ONU desde o início de seu pontificado, há três anos.

"Se os países são incapazes de garantir essa proteção, a comunidade internacional deve intervir através dos meios jurídicos disponíveis nas Nações Unidas", continuou o papa, teólogo de formação, num tom acadêmico.

Em uma reunião na mesma sede da ONU, em 2005, após o traumatismo causado ao mundo pela situação em Ruanda, líderes mundiais assumiram pela primeira vez na história sua "responsabilidade de proteger" seus povos do genocídio, da limpeza étnica, dos crimes de guerra e de crimes contra a humanidade.

O pontífice chegou no aeroporto internacional JFK, em Nova York, na manhã desta sexta-feira, a bordo de um jato da Alitalia, e foi de helicóptero até a sede das Nações Unidas, onde foi recebido pelo secretário-geral da organização, Ban Ki-Moon.

Ban e o Papa tiveram uma conversa particular de 30 minutos antes do discurso na assembléia.

A fala de Bento XVI na ONU foi um dos destaques de sua primeira viagem aos Estados Unidos como pontífice. Desde terça-feira, quando chegou ao país, ele apresentou uma atitude inédita em relação aos recorrentes abusos sexuais de jovens por padres católicos americanos, desculpando-se publicamente e reunindo-se com vítimas dos assédios.

Em seu discurso, o líder espiritual de 1,1 bilhão de católicos em todo o mundo exaltou a virtude do "consenso multilateral", mas afirmou que este "continua em crise por ser ainda subordinado a decisões de poucos, enquanto os problemas do mundo pedem intervenções na forma de ações coletivas".

Assuntos como segurança, desenvolvimento, desigualdade global e mudanças climáticas "exigem que todos os líderes mundiais atuem de maneira conjunta e demonstrem sua prontidão em trabalhar de boa-fé, respeitando as leis e promovendo a solidariedade em relação às regiões mais frágeis do planeta", declarou o Papa.

Bento XVI prosseguiu advertindo, no entanto, que qualquer ação por parte da comunidade internacional deve respeitar "os princípios que orientam a ordem internacional", que por sua vez "não devem jamais ser interpretados como uma imposição desautorizada ou uma limitação da soberania".

"O que precisamos é de uma busca mais profunda por caminhos para evitar e lidar com conflitos, explorando todas as possibilidades diplomáticas, dando atenção e incentivo à menor chance de diálogo ou desejo de reconciliação", afirmou o pontífice.

Lembrando que em 2008 a Declaração Universal dos Direitos Humanos completa 60 anos de existência, o Papa disse que promover os direitos humanos é "a estratégia mais eficaz para eliminar as desigualdades entre nações e grupos sociais e para melhorar a segurança".

Bento XVI alertou ainda contra "uma concepção relativista" desses direitos, segundo a qual "o sentido e a interpretação dos direitos pode variar, e sua universalidade pode ser negada em nome da diferença cultural, política, social e mesmo religiosa".

"Essa enorme variedade de pontos de vista não pode servir para obscurecer o fato de que não apenas os direitos são universais, mas também a pessoa humana o é".

O pontífice destacou também a necessidade de ampliar o diálogo entre as culturas e religiões do mundo, em um momento de tensão entre o Ocidente e o mundo árabe.

"As Nações Unidas podem contar com os resultados do diálogo entre as religiões, e pode colher os frutos da boa vontade dos fiéis em usar suas experiências a serviço do bem comum", afirmou, sob ovações da assembléia.

Esta é a quarta visita de um Papa à sede das Nações Unidas - antes de Bento XVI, estiveram lá João Paulo II, em 1995 e 1979, e Paulo VI, em 1965.

ga/ap

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