Palestinos correm risco de retaliação financeira ao pedir adesão à ONU

Autoridade Palestina também pode ver aumento da violência e mais retrocessos nas negociações de paz, disseram analistas ao iG

Carolina Cimenti, de Nova York |

Ao apresentar na sexta-feira o pedido de adesão plena à ONU, a Autoridade Nacional Palestina (ANP) correrá sérios riscos de retaliações financeiras, de aumento de violência e de mais retrocessos nas negociações com Israel, segundo especialistas ouvidos pelo iG .

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O presidente da ANP, Mahmud Abbas, é fotografado durante o discurso do presidente americano, Barack Obama
Em primeiro lugar, o governo da ANP, que está profundamente endividado, pode acabar perdendo quase um terço do financiamento do seu orçamento anual. Segundo Hussein Ibish, diretor do Força-Tarefa Americana sobre a Palestina, organização sem fins lucrativos que defende os direitos palestinos junto ao governo americano, é possível que o Congresso americano vote contra a renovação da ajuda anual de US$ 450 milhões.

O Estado israelense também pode penalizar os palestinos financeiramente, bloqueando a restituição dos impostos palestinos recolhidos por ele, uma perda de cerca de US$ 60 milhões por mês ou US$ 720 milhões por ano. O Orçamento do governo palestino para 2011 é de US$ 3,2 bilhões.

O presidente da ANP, Mahmud Abbas, confirmou em 16 de setembro que entregará o pedido pela adesão plena à ONU na sexta-feira , depois de discursar perante a Assembleia Geral. Esse status só pode ser concedido pelos 15 membros (dos quais cinco permanentes, com direito a veto) do Conselho de Segurança da ONU. Os EUA ameaçaram vetar a iniciativa caso ela seja aprovada por nove dos 15 membros do Conselho de Segurança.

O governo palestino vê a iniciativa como um passo importante para ter seu status de Estado reconhecido e acredita que, ao ser aceito como membro da ONU, terá mais poder de barganha com Israel sobre suas fronteiras.

Com o provável fracasso da tentativa de obter o reconhecimento completo, os palestinos devem então pedir à Assembleia Geral da ONU que aprove a mudança de seu status de "entidade" para "Estado observador não-membro" - que é usufruído por outros, como o Vaticano, e contra o qual um veto não é possível. Para aprovar a mudança, precisariam de dois terços dos 193 votos da Casa.

“Mesmo se os palestinos conseguirem uma vitória na ONU, o que não é 100% garantido, os efeitos práticos disso tudo em Ramallah (capital do território palestino da Cisjordânia, controlado pela ANP) podem ser violentos e negativos antes de criar qualquer benefício”, afirmou ao iG Ibish.

A opinião é compartilhada por Stephen Zunes, especialista em Oriente Médio da Universidade de São Francisco. Segundo ele, apesar de a iniciativa palestina na ONU ser mais simbólica do que prática, pode acarretar uma forte onda de violência na região.

“No dia seguinte ao discurso de Abbas na ONU e no dia seguinte à votação do Conselho de Segurança (que ainda não tem data), o Exército israelense ainda estará no território palestino, e os assentamentos israelenses ainda estarão lá. É a receita perfeita para uma terceira e mais violenta intifada (levante palestino). Por muito menos, no passado, elas foram iniciadas”, afirmou Zunes.

O terceiro ponto que os palestinos teriam a perder é em relação às negociações com Israel. Na quarta-feira, o presidente dos EUA, Barack Obama, fez um apelo para que a ANP desista de pedir o reconhecimento de seu Estado. Em discurso na 66ª Assembleia Geral da ONU, em Nova York, Obama afirmou que " não há atalhos para a paz ", que só se tornará realidade por meio de negociações. Em reação a seu pronunciamento, palestinos protestaram nesta quinta-feira contra o presidente americano na Cisjordânia.

A mensagem de Washington já havia sido exposta pela secretaria de Estado Hillary Clinton, que criticou a decisão de Abbas de solicitar o voto no Conselho de Segurança dizendo que “as negociações para a criação do Estado palestino não devem passar por Nova York, mas sim por Ramallah e Jerusalém”.

Os palestinos, porém, acreditam que a pressão internacional na ONU pode ajudar a forçar a retomada das conversas com Israel. “Mas também pode acontecer o contrário. Israel tende a ver a iniciativa como uma agressão política e pode decidir não reabrir nenhuma negociação por sabe-se lá quanto tempo”, disse Ibish.

Nos últimos dois anos, foram realizadas menos de duas semanas de negociações diretas entre Israel e os palestinos. “O governo de Netanyahu é quase um governo de extrema direita, e ele é um político facilmente inflamável. Os riscos de Abbas encerrar qualquer tipo de conversa após seu discurso em Nova York são enormes”, concordou Zunes.

Além disso, com o aumento do clima de animosidade entre os dois lados, a vida dos cidadãos palestinos da Cisjordânia, que já é difícil e confinada ao território bloqueado por um muro e pelo Exército israelense, pode ficar ainda mais complicada.

AP
Soldados israelenses tomam posições perto do muro de separação durante confrontos com palestinos em Qalandia, entre Ramallah, na Cisjordânia, e Jerusalém (21/9)
O professor de história palestina na Universidade de Columbia, Rashid Khalidi, amigo pessoal do presidente Obama e famoso nos EUA por criticar as políticas pró-israelitas do governo, acredita que, apesar do frenesi nos meios de comunicação, a declaração de independência de Abbas na ONU não  afetará em nada os palestinos e as negociações.

“Por enquanto não existe nenhum tipo de pressão internacional capaz de realmente fazer com que Israel pare ou retire seus assentamentos das áreas palestinas, e nada mudará até que essa pressão realmente exista”, afirmou por email ao iG . A única mudança que a ONU pode dar aos palestinos, segundo Khalidi, é “um maior reconhecimento internacional como Estado, mas não território, paz ou liberdade”, concluiu.

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