Palestinos comemoram libertação de presos em troca de Shalit

População faz festa para receber prisioneiros soltos por Israel após acordo com o grupo islâmico Hamas

iG São Paulo |

Milhares de palestinos celebraram em Gaza, na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental a libertação de 477 presos após um acordo entre Israel e o grupo islâmico Hamas . Na madrugada desta terça-feira, enquanto o soldado israelense Gilad Shalit era solto pelo Hamas , ônibus com os prisioneiros palestinos deixavam prisões de Israel.

Reuters
Palestinos celebram a libertação de prisioneiros no bairro de Ras al-Amud, em Jerusalém Oriental
Rojões, buzinas e jovens acenando bandeiras em cima de carros fizeram barulho na cidade de Gaza, enquanto milhares se reuniram na praça central para uma aglomeração massiva. Gaza declarou feriado nacional e as escolas foram fechadas. Em Ramallah, milhares lotaram a sede da presidência palestina para cumprimentar os prisioneiros libertados para a Cisjordânia.

Cerca de 2 mil palestinos se concentraram nas imediações do campo militar de Ofer e na localidade de Betania, situada em um dos acessos a Ramallah, onde 95 prisioneiros soltos foram recebidos com festa. O público agitava bandeiras nacionais palestinas e as verdes do Hamas, enquanto gritavam palavras de ordem a favor da captura de soldados israelenses e da retomada de ataques contra alvos de Israel.

Em Gaza, as famílias de 293 presos se aproximaram da zona fronteiriça de Rafah, no extremo sul da faixa, à espera de que seus entes queridos entrassem no território palestino. Muitos manifestantes pediram que o presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmud Abbas, e o líder do Hamas em Gaza, Ismail Haniyeh, assim como outros dirigentes palestinos, reconciliem-se em um momento que qualificam de "histórico".

Outras centenas de residentes do bairro de Isawiya, em Jerusalém Oriental, agitavam bandeiras do Hamas para comemorar a libertação de vários de seus habitantes na troca de presos.

Ao todo, Shalit será trocado por mais de mil prisioneiros palestinos. Israel terá agora de cumprir a segunda parte do acordo: nos próximos dois meses, 550 outros prisioneiros devem ser libertados. Os nomes desses presos ainda não foram definidos. Cerca de 40 dos libertados serão enviados à Turquia, à Síria e ao Catar.

'Anos de solidão'

Shalit, que passou cinco anos em cativeiro na Faixa de Gaza, foi libertado, levado ao Egito e entregue a autoridades no lado israelense da fronteira. Israel afirmou que seu estado de saúde é bom.

Em entrevista à TV egípcia, ele disse esperar que a troca de presos possa levar a um acordo de paz entre os dois povos. "Tenho esperança de que a cooperação entre os dois lados seja consolidada", afirmou.

Na entrevista para a TV egípcia, o soldado de 25 anos descreveu seu período de cativeiro em Gaza como "anos de solidão", mas disse que sempre acreditou que seria "libertado algum dia". Ele disse que soube que seria solto "há uma semana".

Shalit disse sentir "falta de encontrar pessoas normais", conversar e contar sobre sua experiência.

Captura

Shalit foi capturado em 25 de junho de 2006, quando tinha 19 anos, por militantes palestinos ligados ao Hamas. Ele servia em um posto do Exército israelense na fronteira com a Faixa de Gaza. Meses depois, o Hamas assumiu a tutela de Shalit.

Desde então, haviam sido feitas várias negociações para a troca do soldado por prisioneiros palestinos. As conversas nunca progrediram. Um ano após o sequestro, o Hamas divulgou um áudio no qual Shalit dava provas de que estava vivo. Em outubro de 2009, o soldado apareceu em um vídeo.

Os pais de Shalit, Noam e Aviva, passaram a liderar um movimento para a libertação do filho, que ganhou a adesão de israelenses, que se juntaram em grandes manifestações. Nos últimos meses, ativistas montaram um acampamento em frente à residência do primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, para pressionar o governo a assumir um acordo.

AP
Após ser libertado, Shalit fala com os pais ao telefone em local desconhecido
Conexões brasileiras

Um dos liberados em troca de Shalit é Tawfic Abdallah, preso com a mulher, a brasileira Lamia Maruf, em 1986, dois anos após o assassinato do soldado israelense David Manos. A pista que levou as forças de segurança israelenses a prenderem o casal foi o fato de que o carro utilizado para o sequestro do soldado foi alugado com o passaporte brasileiro de Lamia.

Embora tenha afirmado não ter envolvimento no assassinato, Lamia também foi condenada à prisão perpétua, da qual cumpriu 11 anos, até ser libertada em fevereiro de 1997, após um acordo similar ao atual.

Quem também foi incluído na primeira lista é Husan Badran, condenado por planejar o atentado à pizzaria Sbarro, em Jerusalém, que provocou a morte de 15 pessoas, em 2001. Entre os mortos estava o brasileiro Giora Balazs, de 68 anos. A esposa de Balazs, Flora, e sua filha, Deborah, ficaram feridas pelos estilhaços da explosão.

Fortalecimento do Hamas

O acordo firmado deverá fortalecer o grupo islâmico Hamas e enfraquecer seus rivais laicos do Fatah e a Autoridade Palestina, opinam analistas. No dia posterior ao acordo, o analista militar do jornal Haaretz, Amos Harel, disse que haveria um "fortalecimento dramático" da posição do Hamas.

"Os pontos que o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, ganhou com o pedido de reconhecimento (do Estado palestino) na ONU, enfrentando o governo americano, são insignificantes comparados com o lucro político que o Hamas obterá desse acordo", afirma o analista.

O assessor de Segurança Nacional de Netanyahu, Yaacov Amidror, também opina que o acordo dará força ao Hamas, considerado por Israel um grupo terrorista. "O Hamas ganha pontos e se fortalece às custas do Fatah", disse Amidror à radio estatal israelense, Kol Israel. No entanto, Amidror afirmou que o acordo firmado entre Israel e o Hamas para libertar Shalit é o "melhor possível nas circunstâncias atuais".

Ele mencionou as mudanças nos regimes do Oriente Médio, decorrentes da chamada Primavera Árabe , como um fator catalisador para o acordo, agregando que a instabilidade que vigora na região levou o governo israelense a se apressar em concluir o plano porque "ninguém sabe o que acontecerá no futuro".

Com BBC, AFP e EFE

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