Aos 90 anos de idade, o palestino Abu Yussef é um homem frágil. Anda com dificuldade, enxerga mal, mas quando fala da terra que deixou, seu rosto se ilumina e a voz se torna mais firme.

"Plantava azeitonas de qualidade tão boa que até hoje o azeite produzido lá leva o mesmo nome, Beit Na Bel. A terra era fantástica, muito fértil, descobri nela até um poço de água", afirma ele.

Abu Yussef é uma das cerca de 700 mil pessoas que deixaram suas casas e vilas em 1948, fugindo da violência de milícias judaicas que conquistavam terras para a formação de Israel. Ele se tornou um refugiado e, segundo determinou a ONU, seus descendentes também o são.

Identidade
Mesmo com o passar de várias décadas, o apego à terra perdida parece não ter diminuído entre os palestinos.

"Em 1967, um grupo de pesquisadores americanos e israelenses veio nos visitar", afirma Abu Hafiz, que como Abu Yussef, vive no campo de refugiados de Al Jalazon, na Cisjordânia.

"Perguntaram o quanto ainda sentíamos falta de nossas terras e se surpreenderam que, quase vinte anos depois de sairmos, nós não aceitaríamos acordo nenhum para abrir mão dela. Isso faz mais de 40 anos e nada mudou."
O analista palestino Mahdi Abdullah Madi afirma que a ligação com a terra se tornou parte indissociável da identidade do povo.

"Representantes da segunda, terceira e até quarta geração de refugiados carregam a mesma determinação de tentar recuperar a terra palestina", diz ele.

Com 19 anos de idade, Thair Nakhla, como a maioria dos refugiados palestinos, nunca pisou na terra de seus antepassados. Mesmo assim, não admite negociar esse ponto.

"Não se pode esquecer quem somos e de onde viemos", diz ele.

Direito ao retorno
Um dos principais entraves para os avanços de negociações de paz entre israelenses e palestinos sempre foi a questão do direito ao retorno dos refugiados.

A resolução 194 da Assembléia Geral da ONU, de dezembro de 1948, recomenda que os refugiados judeus e palestinos devem ter o direito de voltar se eles desejarem viver em paz com seus vizinhos.

A resolução foi inicialmente rejeitada por países árabes, que não reconheciam Israel, mas depois foi citada pelos mesmos países ao defenderem o direito do retorno dos palestinos.

Um levantamento feito em 2002 pela ONU calcula que o número de refugiados palestinos é de mais de quatro milhões de pessoas.

Eles vivem em terras palestinas na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, além de países como Jordânia, Egito, Iraque, Líbano e Síria.

Um amplo estudo com refugiados, feito em 2003, estimou que 95% consideram essencial que Israel reconheça o direito ao retorno, embora apenas cerca de 10% tenham afirmado que se mudariam para o país.

Israel
Israel, entretanto, não quer o retorno dos refugiados palestinos.

"Eu sei que os palestinos pagaram o preço. A terra era deles, pertencia e seus pais", diz o analista israelense Dani Rubinstein.

"Mas politicamente seria impossível concordar com a volta de milhões de palestinos para Israel. Isso alteraria a essência do Estado judeu."
"Essa foi uma decisão tomada pelo governo israelense ainda em 1948. Na época, centenas de milhares de judeus vindos de países vizinhos e da Europa - gente que havia estado em campos de concentração - tinham vindo a Israel."
"Isso, de certa forma se tornou uma justificativa para o povo israelense, que pensou: 'nós acolhemos muitos judeus de países árabes. Que os países árabes lidem com os refugiados árabes.'"

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