Países do Mercosul chegam a cúpula tentando acertar contas

Natalia Kidd. Buenos Aires, 23 jul (EFE).- O Mercosul realiza sua cúpula semestral marcado pelo conflito da nacionalização de empresas do grupo argentino Techint na Venezuela e a controvérsia entre Brasil e Paraguai pela hidroelétrica de Itaipu, entre outras contas pendentes entre os membros do bloco.

EFE |

Um dos assuntos mais espinhosos é a exigência do Paraguai ao Brasil sobre Itaipu, a maior do mundo em operação e que pertence aos dois países.

Desde que chegou à Presidência paraguaia, em 15 de agosto de 2008, Fernando Lugo insisti em uma série de exigências sobre a hidroelétrica, que inclui a revisão de seu contrato de construção, que já tem 35 anos, para receber seu excedente de energia e vendê-lo a outros países ou ao Brasil, mas a preço de mercado.

O Brasil recebe a energia que o Paraguai não consome a preço de custo e considera que o tratado não pode ser revisado antes de chegar o seu fim, em 2023, mas ofereceu um aumento das compensações e o financiamento de obras viárias e de infraestrutura no país vizinho.

Enquanto isso, a Argentina, que já superou outras diferenças com o Paraguai pela hidroelétrica binacional de Yacyretá, pediu ao Brasil relatórios sobre um projeto para criar uma nova represa no rio Iguaçu, solicitação que até o momento não foi respondida por Brasília.

Já o anúncio do presidente venezuelano, Hugo Chávez, sobre sua intenção de nacionalizar três companhias com participação da Techint, em maio passado, pegou de surpresa Buenos Aires, que considera o governante um de seus aliados estratégicos.

A nova onda de nacionalizações irritou os industriais argentinos, liderados pela gigante da siderurgia Techint, que pediram que o Parlamento suspenda a autorização à entrada da Venezuela no Mercosul, adesão que se arrasta por três anos pela falta de aprovação legislativa no Brasil e Paraguai.

O Governo de Cristina Fernández de Kirchner considerou "um absurdo" congelar a entrada da Venezuela no bloco, mas assegurou que defenderá os interesses da Techint.

Buenos Aires já agiu para conseguir que o grupo fosse indenizado em US$ 1,97 bilhão pela nacionalização da siderúrgica Sidor.

Setores empresariais esperam que o assunto seja tratado na reunião bilateral entre Chávez e Cristina Fernández durante a cúpula de Assunção, possibilidade que não foi confirmada nem desmentida pelas duas partes.

Apesar de a Venezuela ter sido sua principal fonte de financiamento externo nos últimos anos, a Argentina não esquece a polêmica brincadeira de Chávez com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na qual o venezuelano disse que não nacionalizaria empresas com capital brasileiro, uma mensagem que levou Buenos Aires a pedir explicações.

A Argentina tem aberta ainda desde 2003 uma controvérsia com o Governo uruguaio pela instalação de uma fábrica de pasta celulose nas margens desse país do rio Uruguai, recurso de administração compartilhada. A disputa está agora na Corte Internacional de Haia e dificilmente aquecerá de novo os debates do Mercosul.

A cúpula semestral do bloco promete ser novamente o habitual palco de reclamações das economias "menores" (Paraguai e Uruguai) em relação a seus parceiros "maiores" (Argentina e Brasil), em razão das assimetrias existentes entre os dois lados e os impedimentos ao comércio.

A crise global piorou ainda mais este panorama, pois tanto Argentina como Brasil adotaram medidas para proteger suas indústrias locais contra a investida de países como China.

Já Paraguai e Uruguai persistem em suas reivindicações, que mostram a insatisfação dos dois países com o pequeno benefício que obtiveram do bloco, criado há 18 anos. EFE nk/mh

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