Pai de refém das Farc planeja recuperar os 12 anos da separação

Conhecido como ¿andarilho da paz¿ por ter caminhado 1.186 quilômetros para lembrar drama dos sequestrados, professor colombiano espera com alegria libertação programada para terça-feira

Leda Balbino, IG São Paulo |

Do outro lado da linha, a voz do professor colombiano Gustavo Moncayo, de 58 anos, não transparece a ansiedade de tantos anos de espera. A voz é calma e de vez em quando entrecortada pelo riso dos planos.

AP
Moncayo com sua mulher, Maria Estella Cabrera, em Bogotá em 2007

Moncayo com sua mulher, Maria Estella Cabrera, em Bogotá em 2007

Vamos tentar recuperar os 12 anos em que estivemos separados. Agora começa uma nova etapa, um novo caminho, afirmou de Bogotá ao iG em referência à perspectiva de que seu filho e sargento do Exército Pablo Emilio Moncayo, em cativeiro desde 1997, seja libertado em breve.

E caminho é algo que Moncayo, chamado carinhosamente de Profe, entende. Para chamar a atenção para o drama de seu filho, sequestrado pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) dois meses antes de completar 20 anos, Profe percorreu a pé 1.186 quilômetros na Colômbia há três anos.

O objetivo era coletar assinaturas para uma petição pedindo ao governo do presidente colombiano, Álvaro Uribe, que aceitasse um acordo humanitário, com a troca de presos das Farc por reféns.

A caminhada com algemas teve início no sul do país em 17 de junho, quando se comemora o Dia dos Pais na Colômbia, e terminou em 1º de agosto na capital, Bogotá. Para empreendê-la, Moncayo se aposentou da Faculdade de Nariño, onde lecionava ciências sociais.

Renunciei ao magistério depois de 25 anos de trabalho e desde então vivo de minha aposentadoria, contou. Não havia como conciliar o magistério com a campanha pelos reféns, disse.

Depois dessa iniciativa, que lhe rendeu fama e o apelido de andarilho da paz, Moncayo realizou outras caminhadas pelo país, levou a campanha pelos reféns a 24 países e deu palestras em defesa do acordo humanitário em universidades e colégios.

A recompensa é esperada na terça-feira, quando a guerrilha marxista planeja libertar Pablo Emilio, um de seus dois reféns mais antigos. O outro é o cabo Libio José Martínez, que foi capturado com Pablo no ataque lançado contra uma base de comunicações do Exército no Departamento (Estado) de Nariño em 21 de dezembro de 1997.

A libertação será feita com a colaboração do governo do Brasil, que mantém dois helicópteros da Força Aérea na fronteira comum dos dois países. Na terça-feira, as aeronaves devem partir de Florência, no sul da Colômbia, para a operação de resgate.

Gostaria de agradecer o apoio do Brasil, do presidente Lula, que cedeu o pessoal dos aviões, a logística para que ocorra o milagre da libertação, afirmou.

Dois dias antes, no domingo, está previsto que o soldado Josué Daniel Calvo, sequestrado em abril de 2009, seja solto. Pablo Emilio ou Moncayo trarão consigo os restos mortais do major Julián Guevara, morto em cativeiro em janeiro de 2006, oito anos depois de ser capturado pela guerrilha.

Foram 12 anos querendo e lutando pelo meu filho e sei que tudo isso agora será recompensado pela libertação, disse Moncayo, que espera esse dia desde abril de 2009, quando as Farc anunciaram que soltariam seu filho unilateralmente. O coração bate mais forte. Estou ansioso para compartilhar tudo com ele, completou.

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