Pacto entre Karadzic e EUA é uma velha controvérsia

A existência de um acordo que teria sido concluído entre o ex-negociador norte-americano Richard Holbrooke e Radovan Karadzic, garantindo ao ex-líder dos sérvios da Bósnia que não seria julgado pela justiça internacional caso se retirasse da vida pública há anos suscita controvérsia.

Redação com AFP |

Reuters
Karadzic durante comparecimento ao TPI
Durante o seu primeiro comparecimento na quinta-feira diante do Tribunal Penal International (TPI) para a ex-Iugoslávia, e depois em uma carta divulgada nesta sexta-feira, Radovan Karadzic afirmou que Richard Holbrooke havia prometido a ele que não seria "julgado" pelo TPI.

"Em 1996, em nome dos Estados Unidos, Richard Holbrooke fez uma oferta aos ministros e homens de Estado que eram meus representantes autorizados, comprometendo-se em nome dos Estados Unidos a fazer com que eu não fosse julgado por este Tribunal" (o TPI), disse Radovan Karadzic em seu documento.

Esta não é a primeira vez que um "acordo" entre Radovan Karadzic e Richard Holbrooke é mencionado. O ex-negociador norte-americano desmentiu novamente sua existência na quinta-feira à CNN.

Esse acordo, caso exista, permitiria entender por que Radovan Karadzic, acusado pelo TPI desde 1995, havia conseguido escapar da justiça internacional durante tanto tempo. Em 2004, a esposa de Radovan Karadzic, Ljiljana Zelen-Karadzic, havia afirmado que tal documento existia.

Para Florence Hartmann, antiga conselheira e porta-voz da ex-procuradora do TPI, Carle Del Ponte, Richard Holbrooke "desmente, como sempre fez" e Radovan Karadzic "por sua vez, não apresenta prova alguma. Então, é a palavra de um contra a do outro".

A família de Karadzic "sempre disse que tinha elementos de prova do acordo. Veremos o que Karadzic fará", concluiu Florence Hartmann adicionando que não está descartada a possibilidade de uma prova aparecer e ser usada como moeda de troca. .

Em uma entrevista divulgada no dia 24 de julho pelo jornal sérvio Vecernje Novosti, após a prisão de Radovan Karadzic, o homem que foi ministro das Relações Exteriores da Republika Srpska (RS, entidade sérvia na Bósnia) até janeiro de 1998, Aleksa Buha, afirmou que existiam "dois acordos concluídos oralmente" prevendo a impunidade do líder dos sérvios da Bósnia em troca de sua saída da vida pública.

O primeiro "foi concluído com Holbrooke em junho de 1996, Holbrooke havia me confirmado pessoalmente. Ele me mostrou um papel afirmando que continha a decisão assinada de Radovan Karadzic", declarou Buha.

"O acordo foi confirmado um ano depois durante um encontro em Banja Luka entre o presidente (da RS) na época Biljana Plavsic e a secretária de Estado Madeleine Albright, que novamente confirmou que Karadzic não seria julgado se desaparecesse", disse Buha.

Richard Holbrooke declarou na quinta-feira à CNN que havia obtido de Karadzic o compromisso de "se retirar imediatamente de seus dois postos de presidente da parte sérvia da Bósnia e de líder do seu partido. E ele o fez", declarou Holbrooke.

"Mas quando desapareceu, difundiu uma mensagem de desinformação (fingindo) que eu havia feito um acordo com ele (segundo o qual) se desaparecesse não o perseguiríamos. Era uma afirmação totalmente falsa".

Comparecimento ante o TPI

Karadzic pediu nesta quinta-feira o prazo de 30 dias para se declarar culpado ou inocente ante o Tribunal Penal Internacional (TPI) para a antiga Iugoslávia.

Radovan Karadzic, de 63 anos, declarou que o juiz Alphons Orie "compreende perfeitamente" sua posição ao se negar a se declarar culpado ou inocente nesta quinta-feira, durante esta primeira audiência.

O juiz fixou, então, uma nova data. "Decido, pela presente, programar um novo comparecimento ante a sala em 29 de agosto às 14H15", declarou o juiz Orie.

Interrogado pelo juiz sobre a ausência de advogados nesta audiência, ele respondeu: "Tenho um conselheiro invisível. Decidi me defender a mim mesmo".

Karadzic, indiciado por genocídio há 13 anos, compareceu pela primeira vez nesta quinta-feira ante TPI. Em sua declaração inicial, anunciou que assumirá sua própria defesa.

Quem é Radovan Karadzic?

Radovan Karadzic foi indiciado por planejar o massacre de cerca de oito mil muçulmanos bósnios em Srebrenica e pelos 43 meses de cerco a Sarajevo, onde mais de 11 mil pessoas morreram em virtude dos bombardeios, disparos de franco-atiradores, desnutrição e falta de atendimento médico.

Pouco se sabe sobre o que o ex-líder fez nos anos que ficou foragido. Relatos nunca confirmados dão conta de que se disfarçou de padre ortodoxo e morou em monastérios, levando uma vida secreta sob a proteção de nacionalistas radicais presentes no Exército e na polícia.

Nos últimos anos, passou a viver na capital sérvia usando um nome falso, fingindo ser um praticante de medicina alternativa e usando barba longa, cabelo comprido e óculos grossos para esconder o rosto. Muitos nacionalistas consideram-no um herói vitimado pela propaganda anti-Sérvia.

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