Pacheco transforma Prêmio Cervantes em uma alegação sobre a humildade

Alcalá de Henares (Espanha), 23 abr (EFE).- O Prêmio Cervantes reconheceu hoje a humanidade e o compromisso fraterno da obra do poeta mexicano José Emilio Pacheco, que recebeu o prêmio em Alcalá de Henares com uma humildade que o levou a se autoproclamar membro de uma ordem de mendigos, a dos escritores.

EFE |

"Eu gostaria que o prêmio Cervantes tivesse sido para Cervantes.

Como teria aliviado seus últimos anos recebê-lo", afirmou Pacheco após receber das mãos do rei Juan Carlos I o prêmio máximo das letras hispanas, em um ato no qual foram lembrados os recentes terremotos do Chile e Haiti.

Pacheco, que tinha anunciado um discurso "muito simples e muito modesto", assegurou que a situação dos escritores não mudou desde os tempos em que o próprio Cervantes e seu rival Lope de Vega se humilhavam "perante duques, condes e marqueses".

"Quase todos os escritores somos, querendo ou não, membros de uma ordem de mendigos. Não é culpa de nossa vileza essencial, mas de um acontecimento que já tem dois mil anos que tende a se tornar mais agudo na era eletrônica", assegurou o escritor mexicano, de 70 anos, que chegou à Cátedra del Paraninfo da Universidade de Alcalá apoiado em uma bengala.

Ali o aguardavam diversas autoridades, entre elas os reis, Juan Carlos e Sofía; o presidente do Governo espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero; a responsável de Cultura do Governo mexicano, Consuelo Sáizar; e a ministra de Cultura espanhola, Ángeles González-Sinde.

Pacheco encontrou "argumentos contra a vaidade" inclusive na lembrança do fato que protagonizou minutos antes de começar o ato de entrega do prêmio, quando suas calças caíram: "Não tinha suspensórios", explicou aos jornalistas.

O rei da Espanha falou da "bondade" e da "modéstia" do autor de "Tarde o temprano" ("Tarde ou Cedo"), destacando que a obra do agraciado goteja "uma humanidade e um compromisso fraterno" que "o levaram sempre a estar perto dos que sofrem".

Como exemplo citou "Las Ruinas de México" ("As Ruínas do México"), o poema escrito por Pacheco após o terremoto que assolou seu país em 1985, e lembrou a "profunda dor" causada pelos recentes tremores sofridos "pelo querido Haiti" e "por essa pátria irmã e literária que é o Chile".

Pacheco tinha terminado seu discurso afirmando que "nada do que está acontecendo neste cruel 2010 - dos terremotos à nuvem de cinza vulcânica, da miséria crescente à inusitada violência que devasta países como o México - era previsível no começo do ano".

"Tudo muda dia a dia, tudo se corrompe, tudo se destrói", acrescentou o agraciado, que, no entanto, deixou uma porta aberta: "No meio da catástrofe, no centro do horror que nos cerca por todas as partes, continuam de pé, e hoje como nunca são capazes de nos dar respostas, o mistério e a glória do Quixote", afirmou.

"Pacheco compartilha com Cervantes uma diversidade criativa que abrange diversos gêneros literários e que sempre foi tingida de um profundo sentimento de proximidade humana", destacou Juan Carlos I.

O rei ressaltou que em seu "extenso percurso criativo o escritor mexicano viajou através da riqueza e dos matizes do espanhol, do coloquial à alegoria, do monólogo dramático à voz do cronista, da pitada irônica à profundidade de um compromisso ético, exemplar e necessário".

"A obra de Pacheco demonstra que apenas o frágil perdura, que há defesa contra o vazio e que se pode ter consciência do tempo", segundo ressaltou em seu discurso Ángeles González-Sinde.

A ministra também elogiou a humildade de um autor que "entre ser admirado e se envolver, escolhe a humildade, decide se envolver", uma decisão que o levou a assinar "alguns dos poemas mais compassivos e solidários do último meio século".

"Poemas que nos ajudam a ser melhores perante nós mesmos, frente à violência e à crueldade, frente a qualquer forma de adversidade", acrescentou a ministra.

Terminada a cerimônia de entrega do prêmio, Pacheco deixou o local levado pelo braço pela rainha Sofía, com a qual percorreu junto com as outras autoridades as dependências da histórica universidade, até chegar a uma sala onde foi tirada a foto ofical do ato.

Também se somaram à foto a mulher do escritor e suas duas filhas, que até então tinham se mantido em segundo plano. EFE arv/ma

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