Os raios de Ohio

Ohio é um campeão de presidentes americanos. Sete deles nasceram aqui.

BBC Brasil |

Só Virgínia gerou tantos e, mesmo quando não nascem aqui, a Presidência passa pelo Estado. Desde Lincoln nenhum presidente republicano ganhou a eleição sem ganhar Ohio.

O Estado é um microcosmo dos Estados Unidos: urbano, rural, industrial, universitário, forte em comércio e bancos, republicano em uma eleição, democrata em outro. O clássico Estado "swing", imprevisível.

A eleição de 2004 foi decidida aqui com uma vantagem de 118 mil votos de 8 milhões de eleitores. Uma eleição controvertida, porque milhares de eleitores pobres, em especial negros, tiveram problemas para votar. Depois de horas de espera e confusões nas mesas, muitos voltaram para casa sem votar.

A economia do Estado vai mal, mas há setores prósperos. Tem 250 bancos comunitários - com ativos abaixo de US$ 1 bilhão de dolares - nenhum faliu nesta crise e pouquíssimos estão ameaçados. Não entraram na fossa dos derivativos e do subprime. São bancos com poucos acionistas e de famílias.

Robert Palmer, presidente da Associação dos Bancos Comunitários, embora crítico dos excessos republicanos de Washington, me disse que quer ver mais um republicano na Casa Branca. Pelas contas dele, 85% dos donos e acionistas dos bancos comunitários são pró-McCain.

Mark Kelly, presidente do banco Insight também torce por McCain mas a preocupação dele é com Washington dominado por democratas no Congresso e na Casa Branca.

"Nós, que fizemos tudo certo, pelo livro, vamos ser vítimas de mais regulamentação e mais impostos de Obama. Vão quebrar vários dos nossos bancos comunitários".

Na sede do Partido Republicano, encontro John McClelland, diretor de comunicações do partido. Acha que McCain tem boas chances no Estado, mas acusa os democratas de fraude no gigantesco recrutamento de novos eleitores, 600 mil. Um recorde.

"Duzentos mil destes títulos são suspeitos, porque os nomes e endereços não coincidem com as informações da Previdência (Social Security) e das carteiras de motoristas".

"A culpa", diz ele, "é das organizações que registraram os novos eleitores e da secretária de Estado", uma democrata.

Os republicanos, que foram os campeões das mutretas nas urnas em 2000 e 2004, agora acusam os democratas de jogo sujo.

A seis quarteirões dali, na sede do Partido Democrata, encontro Tom Reynolds, diretor de comunicações do partido. Muito mais animado com as perspectivas de Barack Obama. Beira a arrogância. Conta que montaram uma máquina inspirada no Partido Republicano e têm quatro vezes mais estagiários pagos e voluntários do que os McCain.

"Nenhum eleitor neste Estado com 88 municipios está a mais de 40 quilômetros de um dos nossos escritórios", diz.

McCain reforçou a campanha nos últimos dias com comerciais na televisão no Estado, e Sarah Palin passou a manhã aqui, mas Obama gasta pelo menos quatro vezes mais no Estado do que o republicano. Uma operação massacrante. As pesquisas colocam Obama na frente com margens que variam de 3 a 11 pontos.

Se Obama ganhar nos mesmos Estados em que John Kerry ganhou em 2004 - o que é muito provável - ficam faltando 18 votos para chegar aos 270 decisivos.

Com os 20 votos do colégio eleitoral de Ohio, a eleição está terminada. Se perder, o democrata pode dar o golpe final na Flórida, onde também está na frente pelas pesquisas. Se perder em Ohio e na Flórida, basta ganhar em 2 de 4 Estados onde também lidera: Colorado, Iowa, Virgínia e Novo México.

Para McCain, se perder em Ohio, precisa compensar com a Pensilvânia - passou o dia lá ontem e é onde aposta suas fichas - mas está com mais de 10 pontos atrás, e em New Hampshire, onde também corre atrás.

Nesta previsão do tempo político, Obama pode se dar ao luxo de suspender a campanha e visitar a avó doente no Havaí.

Em Ohio, tudo aponta para o caminho do Judiciário, com processos republicanospara invalidar títulos de eleitores. O resultado pode levar dias, talvez semanas.

Pode ser um déjà vu da Flórida de 2000, mas, nesta campanha, McCain vai precisar mais do que dos raios de Ohio. Se não for fulminado aqui, vai ser quase impossível escapar da tempestade democrata em outros Estados cruciais.

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