Primeiro de maio. Eleições.

Só em Londres. Para prefeito.

É preciso prestar muita atenção, senão elas passam despercebidas e os candidatos - que os há - terão de resolver a questão na base da cara ou coroa.

A única vantagem do processo democrático é poder passar por cima dessas frescuras desconhecendo-as solenemente. Eu não tomo conhecimento de qualquer eleição. Principalmente de eleição para prefeito de Londres.

As eleições, por sua vez, felizmente não tomam conhecimento de mim. Sei que elas estão aí. Porque há algumas páginas dos 13 jornais nacionais (Londres não é tão nacional assim) que dão uma vaga atenção, em duas ou três colunas, mais ou menos, ao aborrecido assunto.

Na televisão também, os candidatos puderam ser vistos discutindo e sendo arguidos. Puderam ser vistos - mas não por mim. Nesse tempinho que antecedeu o democrático evento (resisti à tentação das aspas), dei uma zapeada firme no controle remoto e passei célere para a primeira das infinitas séries americanas sobre assassinos seriais, seqüenciais e até mesmo cereais.

Em suma: escapei, e ileso, das campanhas.

Não houve, nem pode haver, muro pichado ou furgão com alto-falante berrando inanidades democráticas. Eleição aqui é em voz bem baixinha.

Que fique claro: não é feriado. Nem ponto facultativo. Se um dever cívico aflige um cidadão compenetrado, antes ou depois do trabalho, ele passa no posto eleitoral logo ali pertinho de sua casa - em geral um colégio ou uma igrejinha - e escrutiniza firme.

Depois, aquela esparrela de sempre: um cara é eleito para representar... Paremos por aí. É isso mesmo: representar. Ponto. Não precisa ser um Laurence Olivier. Um Hugh Grant basta. A única coisa que se pede dos escolhidos pelo povo é que falem pouco e sem levantar a voz.

Os candidatos
Como tenho mais de 30 anos de jornalismo ativo e passivo, estudei longamente por cerca de 10 minutos os candidatos a prefeito de Londres. São muitos. Para dissecar, fiquei com apenas quatro dos mais cotados.

O primeiro deles é o atual prefeito, Ken Livingstone, que concorre ao trono de um terceiro mandato. Foi o primeiro prefeito eleito de Londres e pelo visto quer ser o único. Além de uma série de medidas, controvertidas e não controvertidas, conforme os casos, o fato mais importante em seu currículo é que ele é fanho.

Nessa condição, pertenceu primeiro ao partido aqui chamado, com muita graça, de Labour, que nós diríamos, sem nenhuma graça, "trabalhista". Depois de se desentender com o então primeiro-ministro Tony Blair, candidatou-se ao segundo mandato como independente. O que também tem graça. Tomou uma porção de providências, conforme é comum nos prefeitos. Não vem ao caso o mérito das tais providências. Politização exige um mínimo de limites.

O outro candidato é do partido Conservador. Nome dele é Boris Johnson. Onde vamos nos deparar com o primeiro erro. Ninguém chamado Boris pode ser eleito coisíssima alguma em Londres. Ou qualquer outra cidade do mundo ocidental.

Apesar da desvantagem onomástica, ele também tem sua graça. Loirão despenteado, bem fornido, sotaque "bem" como não fabricam mais, chegado a dar tremendas ratas, no que se assemelha ao seu rival fanhoso.

Boris, com uma ligeira mão-de-obra, poderia perfeitamente passar por um urso panda de circo. Preferiu os desatinos da política aos do jornalismo, que até bem pouco praticava. Saiu perdendo a política, saiu perdendo o jornalismo. Boris, no entanto, é agradável de se ver. Por um máximo de 3 minutos, é claro.

Pegando placé
Correndo por fora, em terceiro lugar, temos, ou eles têm, o ilustre Brian Paddick, que defende as cores do partido Liberal Democrata. Foi chefe de polícia ou coisa semelhante. Bem apanhado e é a favor de muita coisa e contrário a outras tantas. Brian Paddick é abertamente gay. No que faz muito bem e tem toda razão. Brian Paddick acha que todas as comunidades londrinas precisam, porque precisam, sentir que a polícia está do lado delas.

Um parêntese: nada mais detestável do que falar em comunidades. Sempre que alguém menciona "comunidades" é um tal de correr gente para tudo quanto é lado. Ninguém quer fazer parte de uma comunidade. As comunidades, além do mais, dão azar a quem a elas faz parte ou o comunitarismo pratica.

Verdes
Ah. Tem um verde também. Aliás, uma verde. Sian Berry. Cujo primeiro nome deve ser pronunciado assim: "shón". Sian Berry é a favor de que as diversas regiões administrativas da cidade se responsabilizem pelas necessidades dos que aqui vêm buscar asilo.

Também busca justiça global e é contra a venda de armamentos. Contra a guerra, qualquer guerra, nem é preciso dizer. Ela diz ser a favor de uma Londres que receba de braços abertos os imigrantes. E que a diversidade deve ser encarada e celebrada como um benefício para toda a população londrina.

Eu procurei, procurei mas não consegui achar uma fotografia da candidata. Não sei se Sian Berry, como classificaríamos nós brasileiros, em nossa auri-verde metodologia antropomorfológica, é mulher-melancia, mulher-melão, mulher-provolone ou mulher-salaminho.

O meu voto
Se eu não votava no Brasil, onde era obrigado, por que raios iria eu votar aqui, onde não posso? Ora!

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