Os contrastes de um país sob Chávez

Caracas é uma cidade de contrastes. Enquanto convive com favelas maiores e mais pobres que as do Rio de Janeiro, parte da elite ligada ao governo ostenta mansões dignas de cinema. Com a gasolina mais barata do mundo, o número de carros que circulam pela cidade deixa o trânsito caótico. Mas nem por isso eles são novos. Muitos caem aos pedaços e exibem remendos coloridos.

Gustavo Gantois, enviado especial a Caracas |

Gustavo Gantois
Carros velhos compartilham ruas com automóveis carros

Carros velhos compartilham ruas de Caracas com automóveis caros

Esse contraste também se reflete na forma de pensar do venezuelano. Há aqueles que querem construir uma carreira de sucesso, ganhar muito dinheiro e poder morar nas tais mansões. Mas eles votam em Hugo Chávez. Por outro lado, há os que querem uma melhor distribuição de renda e acreditam que a Venezuela está indo para o fundo do poço. Esses não querem nem pensar em um novo mandato do comandante.

"O venezuelano é um ser politizado por natureza", explica o sociólogo Amalio Belmonte, da Universidade Central da Venezuela. "O problema é que a política é diferente na cabeça de cada um deles."

O casal Mercedes e Alvaro Montillo é uma prova disso. Ela tem 62 anos e é chavista até o último fio do cabelo levemente pintado de vermelho. Alvaro, aos 56 anos, prefere não criticar abertamente para não contrariar a mulher, mas não suporta mais o governo bolivariano.

Gustavo Gantois
Mercedes e Alvaro Montillo

Mercedes (centro) e
Alvaro Montillo (direita)

"Há algo no nosso povo que consegue conviver bem com as diferenças", tenta explicar Alvaro. "Não me pergunte o que é e muito menos se isso será assim pra sempre. Mas eu espero que sim."

Os últimos protestos que tomaram conta da cidade mostram, infelizmente, o contrário. Os embates entre grupos contrários têm sido cada vez mais frequentes. Alguns resultaram em mortes, como ocorreu em Mérida na última segunda-feira.

O embate maior, bem da verdade, fica por conta dos chavistas. Visivelmente mais agressivos que a oposição, é nítido o medo que percorre os olhos de alguns deles ao falar de uma possível Venezuela sem Chávez.

"O comandante nos deu dignidade e o que comer", conta Juan Avendaño Barinas, morador de Barrio Union Petare, onde fica uma das maiores Missões promovidas por Chávez.

As Missões são, teoricamente, programas sociais abastecidos com o dinheiro do petróleo que, agora, promovem "justiça social". "Mas acho que seria melhor para o nosso país que outra pessoa pudesse completar o trabalho que ele iniciou", completa Laura Avendaño Barinas.

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O casal Avendaño Barinas com seus filhos

O casal Avendaño Barinas com seus filhos

Essa visão foi captada por uma pesquisa feita pelo sociólogo Amalio Belmonte. A identificação com Chávez de grande parcela dos venezuelanos, sobretudo os mais pobres, é pessoal e destacada de sua retórica ideológica.

Os venezuelanos gostam de Chávez por três motivos. Primeiro, porque ele se parece com as pessoas do "povo", por ser mestiço. Segundo, porque acreditam que ele dá voz aos pobres. Terceiro, porque veem nele os valores morais, familiares e religiosos que mais prezam.

AP
País convive com protestos pró e contra Chávez

País convive com protestos pró e contra Chávez

Mas nem toda identificação é gratuita. "Os mesmos cidadãos que se identificam com Chávez discordam dos ataques do presidente à propriedade privada, não gostam da militarização do país e sentem calafrios só de pensar em ver a Venezuela repetir a experiência cubana", diz Belmonte.

Ao que tudo indica, os venezuelanos gostam mesmo dos contrastes típicos do país. Nem que esse seja um dos pontos mais atacados pelo tal socialismo bolivariano de Hugo Chávez.

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