A vitória de Barack Obama na disputa presidencial americana não deve representar mudanças profundas na relação entre os Estados Unidos e o Oriente Médio, na opinião de analistas ouvidos pela BBC Brasil. Entretanto, muitos esperam que Washington assuma um papel mais ativo no Oriente Médio, especialmente em assuntos que exigem solução mais urgentes, como a questão palestina e o Irã.

"Não acredito em mudanças profundas. Com Obama teremos, no máximo, um alívio, um abrandamento da retórica agressiva do governo americano, o fim da 'doutrina Bush' e talvez um pouco mais de diálogo com países como o Irã", disse Khalid Al Maeena, editor-chefe do jornal saudita Arab News.

"Na superfície, dizemos que somos amigos, mas em relações internacionais não existem amigos ou inimigos permanentes. Todos têm em mente seus interesses e prioridades em primeiro lugar."
O diretor do centro de estudos políticos Al Quds, na Jordânia, Oraib Rantawi espera por um engajamento maior do futuro presidente e lembra que avanços recentes na região não foram resultado da diplomacia de Washington.

"As recentes iniciativas bem-sucedidas na região não contaram com a participação americana, como o acordo no Líbano ou a volta das negociações entre sírios e israelenses", afirma Rantawi, que diz esperar que com Obama a diplomacia americana seja usada para resolver a crise com o Irã.

O jornalista saudita Khalid Al Maeena também acredita em uma melhoria nas relações com os iranianos.

"Bush e Ahmadinejad estão jogando o mesmo jogo de retórica violenta, mas existem parcelas substanciais de americanos e iranianos que desejam uma postura mais sóbria", afirmou Al Maeena.

Oraib Rantawi diz ser preciso ser realista em relação ao novo governo americano, dizendo que "quando o assunto é Oriente Médio, os governos americanos - democratas ou republicanos - têm algumas prioridades, e democracia e direitos humanos não estão entre elas".

"As prioridades dos Estados Unidos para a região são petróleo, Israel e segurança."
Irã, Hamas e Hezbollah
Apesar da forma realista como vêem a vitória de Obama, especialistas do Oriente Médio mostram-se esperançosos na melhora das políticas de Washington para a região.

Entre as possíveis mudanças esperadas, está um maior diálogo com países e grupos hostilizados pelo governo Bush.

"Devemos ver um avanço da diplomacia, e espero que Hamas e Hezbollah sejam incluídos no processo político. Esses grupos repetem que desejam ser parte da solução e não do problema", afirma Rantawi.

"O isolamento apenas fortalece seus setores mais extremistas."
O analista iraniano Musib Nu'aymi, em artigo publicado no jornal Al Vefagh, afirmou que "não há dúvidas de que o próximo presidente americano será melhor que Bush em termos de políticas, mentalidade e prática. As apostas, no entanto, não devem ser altas, e miragens não devem ser confundidas com realidade", disse.

Imagem e a questão palestina
Na opinião do diretor da Universidade Americana do Cairo, Jerry Leach, as maiores preocupações do novo presidente americano devem ser a economia e, em segundo plano, os desafios da política externa, como as campanhas militares no Iraque e Afeganistão.

"O conflito entre israelenses e palestinos deve ficar para trás na lista de prioridades", afirmou Leach.

No entanto, para Al Maeena, um maior empenho neste tema seria a única forma de mudar a percepção negativa que os Estados Unidos têm na região.

"A única forma do país se redimir é ser visto como um mediador honesto no conflito entre israelenses e palestinos", afirma. "Não pedimos para que eles abandonem seus amigos israelenses, mas apenas justiça, que os palestinos tenham o direito de ser donos de seu próprio futuro."
O analista jordaniano concorda, afirmando que "para mudar sua imagem na região, os EUA precisaram apenas facilitar uma solução pacífica entre israelenses e palestinos".

"As pessoas do Oriente Médio conseguem enxergar que (os centros de detenções de) Guantánamo e Abu Graib são problemas pontuais, casos passageiros."
Direitos humanos e democracia
Outras questões que devem avançar pouco, na opinião dos analistas, são a dos direitos humanos e a da democracia, embora ressaltem que democratas americanos tendem a prestar mais atenção aos assuntos do que republicanos.

"Por mais que os Obamas do mundo queiram criar um clima de tolerância e direitos humanos, eles não serão bem-sucedidos até que as pessoas no Oriente Médio também desejem isso. Cabe a nós criarmos instituições, fortalecê-las e, só então, pedir para que os outros nos ajudem com sua experiência", afirmou Al Maeena.

O analista jordaniano Oraib Rantawi diz que, nos últimos anos, a questão dos direitos humanos avançou pouco porque "não existe pressão interna (nos países) forte o suficiente. Os ativistas são fracos, divididos e oprimidos".

Os analistas afirmam que a confiança no compromisso americano com a democracia foi duramente abalada durante o governo Bush, quando o Hamas venceu as eleições parlamentares palestinas em 2005, sofrendo imediatamente um boicote da comunidade internacional.

"A conseqüência foi que aconteceram eleições fraudulentas em vários países árabes, alguns considerados moderados, como o Egito. Mas os lideres ocidentais não prestam atenção nisso. Nos últimos dois anos, quando políticos do Ocidente vêm à região, eles buscam fechar negócios para comprar petróleo ou para vender armas", afirma Rantawi.

Resultados de uma pesquisa conduzida pelo Serviço Mundial da BBC entre julho e agosto sugerem que a maioria de egípcios, libaneses e turcos não acredita que a eleição de Obama seja suficiente para modificar a forma como os Estados Unidos se relacionam com os demais países do mundo.

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