Opositores desafiam Governo iraniano em Teerã; confrontos deixam 1 morto

Javier Martín. Teerã, 15 jun (EFE).- Centenas de milhares de iranianos desafiaram hoje as autoridades locais e tomaram o centro de Teerã em apoio ao candidato opositor, Mir Hussein Moussavi, que pediu novas eleições depois da reeleição do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, nesta sexta-feira, em meio a suspeitas de fraude.

EFE |

A manifestação terminou com novos confrontos entre grupos da milícia Basij e eleitores de Moussavi que deixaram um morto por arma de fogo, dezenas de feridos e muitos detidos.

Testemunhas relataram à Agência Efe que os milicianos abriram fogo contra um grupo de partidários de Moussavi em uma praça na parte oeste de Teerã, para onde quase um milhão de manifestantes se dirigiram hoje.

Em silêncio, com o braço direito erguido e fazendo o sinal da vitória com os dedos, centenas de milhares de pessoas desfilaram pela emblemática avenida Enghelab, palco das manifestações que, 30 anos atrás, acabaram com a autocracia do último xá de Pérsia, Mohamad Reza Pahlevi.

À frente da manifestação, dois homens que há três décadas também lideraram o movimento opositor ao regime ditatorial: o ex-primeiro-ministro Mir Hussein Moussavi e o ex-presidente do Parlamento Mehdi Karrubi.

Com a aparência cansada, Moussavi reapareceu em público apesar da advertência do Ministério do Interior iraniano de que seria responsabilizado pelos eventos que ocorressem em uma manifestação que tinha sido proibida.

"Estamos preparados para participar de novas eleições presidenciais. O voto do povo é muito mais importante do que a pessoa de Moussavi ou de qualquer outra", afirmou.

Suas palavras quase não chegaram perto das milhares de pessoas próximas ao alto-falante que estava em suas mãos.

Quilômetros atrás, outros milhares caminhavam decididos e movidos pelo simples interesse de testemunhar o que consideram como quase um "golpe de estado".

"Vamos reunir aqui hoje mais de um milhão de pessoas, embora toda a imprensa tenha falado que não podemos convocá-las", explicou à Efe um dos membros da campanha de Moussavi, acrescentando que "esta é a verdadeira voz do povo e devem escutá-la".

A mobilização representa um grande desafio ao Governo de Ahmadinejad e lança dúvidas sobre a legitimidade de seu surpreendente triunfo nas urnas ainda no primeiro turno.

Com os veículos de imprensa e os aparatos do Estado a seu favor, o presidente iraniano reuniu no domingo alguns milhares de pessoas em uma praça no centro de Teerã, apesar das convocações em discursos por meio da televisão nacional.

Hoje, apesar do corte no sinal dos telefones celulares nos limites da avenida Enghelab e do serviço de mensagens SMS há dois dias, a oposição reformista conseguiu reunir centenas de milhares de pessoas.

Com os veículos de imprensa estrangeiros retidos em Teerã e a televisão estatal evitando falar sobre as mobilizações, pouco se sabe da situação em outras cidades do Irã.

No entanto, fontes contatadas pela Efe por telefone asseguraram que movimentos de oposição similares foram registrados em outros pontos do país, como nas cidades de Isfahan e Shiraz.

A aparência dos protestos e a determinação dos manifestantes parecem ter obrigado o líder supremo da Revolução Islâmica, Ali Khamenei, a seguir um novo rumo.

A máxima autoridade do Irã respaldou neste final de semana a vitória do presidente e pediu para que os outros candidatos aceitem o resultado.

Mesmo assim, Khamenei garantiu a Moussavi no domingo que sua queixa seria atendida dentro do âmbito legal, no Conselho de Guardiães, organismo responsável pela validação do pleito.

O porta-voz deste conselho, Ali Kadjodai, confirmou hoje que a queixa formal de Moussavi tinha sido recebida e que seria "examinada com atenção" a partir de amanhã, em processo que pode se estender entre sete e dez dias.

Resta saber agora se a oposição continuará com os protestos de forma pacífica ou se os confrontos voltarão a acontecer em uma Teerã tomada pela Polícia e pelos milicianos.

Universitários contaram à Efe que, na noite de ontem, policiais invadiram alojamentos estudantis, onde detiveram dezenas de pessoas e incendiaram vários quartos.

"Pelo menos quatro pessoas morreram", assegurava hoje uma estudante na porta da universidade, onde mostrava uma foto de um quarto queimado.

A notícia não pôde ser confirmada nem desmentida por outras fontes. EFE jm-msh/bba

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