Sergio Imbert. Moscou, 31 jan (EFE).- A oposição voltou a desafiar hoje o Governo em Moscou com mais um protesto não autorizado, o que torna evidente o descontentamento popular que começa a brotar de todas as partes da Rússia.

A Polícia deteve no centro de Moscou dezenas de opositores que participavam de uma marcha convocada em defesa do direito constitucional de se manifestar, que fora terminantemente vetada pelas autoridades.

Entre outros, foram detidos políticos opositores famosos no país e dirigentes de ONGs, como o escritor Eduard Limonov, líder do proscrito Partido Nacional Bolchevique, e o representante da Frente de Esquerda, Konstantin Kosiakin.

"Fui detido e colocado em um ônibus. Aqui estamos em 16 pessoas, e ao lado há outros três ônibus cheios. As detenções prosseguem", disse o diretor do centro humanitário Memorial, Oleg Orlov, à agência de notícias "Interfax".

Aleksandr Averin, dirigente do movimento A Outra Rússia, denunciou que "a Polícia atua com extrema dureza" e calculou que "em apenas uma hora foram capturadas pelo menos 60 pessoas".

Segundo as agências locais, cerca de 400 manifestantes se reuniram junto ao monumento a Maiakovski e à Sala Tchaikovsky e gritaram "vergonha" para o Governo.

Para impedir o protesto, as autoridades concentraram cerca de 20 ônibus com policiais, unidades antidistúrbios e soldados.

Foi a quinta vez que a Prefeitura proibiu o protesto, que a oposição extraparlamentar convoca todo dia 31 em defesa do artigo de mesmo número da Constituição, que referenda o direito a manifestações pacíficas.

Os últimos protestos, realizados em 31 de outubro e de dezembro passados, terminaram com dura repressão policial e a detenção de dezenas de manifestantes.

A organização Anistia Internacional denuncia que, ao impedir que o povo exerça seu direito à liberdade de reunião e de expressão, a Rússia viola os direitos humanos e sua própria Constituição.

Ao contrário de outras vezes, hoje a Polícia não deteve a ativista Liudmila Alexeyeva, de 82 anos e chefe do Grupo Helsinque de Moscou.

A ONG Human Rights Watch considerou a detenção de Alexeyeva em 31 de dezembro foi "a ilustração perfeita da situação dos direitos humanos na Rússia".

Também hoje, um protesto similar de opositores liberais e comunistas, mas desta vez autorizado, foi realizado na cidade de Vladivostok, no litoral pacífico do país, e transcorreu sem incidentes.

Mas se a involução democrática na Rússia parece preocupar apenas partidos políticos e ONGs, a crescente corrupção e as arbitrariedades e abusos do Governo parecem começar a afetar a lendária paciência do povo russo.

Hoje mesmo, também no centro de Moscou, a renúncia do prefeito da capital, Yuri Luzhkov, foi pedida em protesto por cerca de 200 habitantes da comunidade de Rechnik, que a Prefeitura ordenou destruir por considerar uma construção ilegal.

Com um frio de 20 graus negativos, as escavadeiras começaram a derrubar na semana passada as casas, situadas em uma área privilegiada nas margens do rio Moscou, onde está prevista a construção de hotéis de luxo.

Segundo as agências, hoje a Polícia se absteve de intervir contra os moradores de Rechnik, que pareciam dispostos a tudo e que há dois dias tentaram bloquear uma das principais ruas de Moscou.

Em Kaliningrado, cerca de dez mil pessoas e militantes de diversos partidos participaram neste sábado de um protesto que buscava obrigar o governador da região a revogar a ordem de aumentar o imposto sobre veículos motorizados.

"Os habitantes de Kaliningrado demonstraram a toda Rússia como é preciso defender seus direitos", declarou Nemtsov no comício, cujos participantes reivindicaram a renúncia do Governo local e do Governo federal, liderado pelo premiê Vladimir Putin.

Os comunistas denunciaram no sábado que "o Governo, que demonstrou sua incapacidade de dirigir o país, superar a crise e respeitar a Constituição e os direitos e liberdades humanas, não tem autoridade moral para seguir na Rússia, e deve renunciar".

"Se levarmos 200 mil pessoas às ruas, o Governo cairá", declarou o líder comunista Gennady Ziugánov, que afirmou que na Rússia as ideias bolcheviques em prol dos direitos dos trabalhadores parecem ganhar força. EFE se/rr

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