Oposição venezuelana vai às urnas escolher rival de Chávez

Favorito nas pesquisas das primárias deste domingo é o atual governador do Estado de Miranda, Henrique Capriles Radonski

BBC Brasil |

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Partidos de oposição na Venezuela se enfrentarão neste domingo em eleições primárias para decidir o candidato que enfrentará o presidente Hugo Chávez nas eleições presidenciais de outubro. O favorito nas pesquisas é o atual governador do Estado de Miranda, Henrique Capriles Radonski .

Entrevista ao iG: Favorito da oposição da Venezuela se inspira em Lula contra Chávez

AFP
Henrique Capriles Radonski, provável candidato da oposição nas eleições presidenciais da Venezuela, discursa em Caracas (07/02)

Durante a campanha, em uma tentativa de se desligar do passado que o vincula à direita conservadora venezuelana, Capriles Radonski, 39 anos, se esforçou em adotar uma linguagem popular, prometeu dar continuidade aos programas sociais do atual governo e defende o "modelo Lula" como o caminho à seguir.

"Não é a hora nem da direita nem da esquerda. Chegou a hora do progresso, somos progressistas", disse.

De caráter inédito e interpartidário, as primárias são vistas como a única saída da oposição venezuelana para unir esforços e enfrentar Chávez - com alguma possibilidade de disputa - nas eleições presidenciais.

Analistas apontam que, ao diluir o pleito entre vários candidatos opositores, a vantagem de Chávez - que tem mais de 50% das intenções de voto - se incrementa ainda mais.

"As primárias representam o esforço mais importante que a oposição já fez para conseguir confrontar democrática e eleitoralmente o presidente", afirmou à BBC Brasil o analista político Farith Fraija, diretor da consultoria Visor 360.

Conquista do 'chavismo light'

A campanha opositora foi marcada por dois estilos diferentes de se posicionar contra o presidente: a despolitização e a confrontação.

O primeiro estilo foi adotado pelos dois principais competidores, Capriles Radonski, que centra seu discurso no "progresso", e, em menor grau, por Pablo Pérez, governador do Estado petrolífero de Zulia – o mais populoso do país –, que tem como foco o combate à "insegurança".

Ao evitar ataques frontais contra Chávez e seu projeto socialista, Capriles e Pérez tentam captar votos do chamado "chavismo light" ou de chavistas decepcionados com a atual gestão.

"A política de polarização beneficia a Chávez e não gera votos para a oposição. Capriles Radonski é um exemplo disso", disse à BBC Brasil o analista político Carlos Romero, professor da Universidade Central da Venezuela.

"Chávez propõe o caminho do socialismo, eu proponho o caminho do progresso", diz Capriles Radonski.

De acordo com pesquisas, a candidatura de Capriles Radonski ganhou ainda mais força depois que o também jovem candidato Leopoldo López decidiu abandonar a disputa para apoiar o governador.

Segundo melhor colocado na disputa, Pablo Pérez, de 42 anos, conta com o aparelho político do tradicional partido Ação Democrática (AD) - a principal força opositora na Assembleia Nacional – como motor para angariar votos em todo o país. De acordo com analistas, Pérez fez uma campanha "tradicional" e teve dificuldades de marcar um perfil alternativo.

No outro polo - o da confrontação - aparecem a deputada Maria Corina Machado, que propõe um modelo de "capitalismo popular", e o ex-embaixador Diego Arria, que prometeu levar o presidente venezuelano aos tribunais em Haia. O último da lista é um ex-aliado de Chávez, Pablo Medina.

Plano de governo

A pesar da diferença de tons e estilos, a coalizão opositora se compromete em aplicar um mesmo plano de governo contra o chamado socialismo bolivariano.

A proposta, entre outros aspectos, prevê incrementar a participação privada na exploração petrolífera do país, devolver aos antigos proprietários as terras desapropriadas para a reforma agrária – cerca de 5 milhões de hectares, segundo dados oficiais - e rever as relações diplomáticas com Cuba.

Para o diretor da consultoria Visor 360, a oposição pretende retomar a aplicação de um modelo econômico neoliberal, porém evita utilizar o termo, que a seu ver é rejeitado pela maioria da população.

"O fato de que os principais candidatos tentem imitar Chávez é um indicativo de que o eleitor venezuelano não aceita um candidato que proponha uma agenda de corte neoliberal", afirmou Farith.

A transformação da arquitetura econômica e política do país, implementada durante os 13 anos de gestão chavista, não seria tarefa fácil para a oposição e implicaria mudanças na Constituição de 1999, opinou Farith.

"Se de algo se ocupou este governo foi de criar um conjunto de instituições para viabilizar seu projeto de país", acrescentou.

Jogo democrático

Na avaliação do analista político Carlos Romero, as primárias da oposição favorecem também ao governo. "É importante porque o governo pode mostrar que na Venezuela há um jogo democrático e ainda mais importante para a oposição porque permitiu o reencontro de lideranças políticas opositoras que tinham perdido a fé na possibilidade de competir com Chávez."

Há pelo menos cinco anos a oposição venezuelana tenta se desligar do estigma de "golpista" que marca a carreira dos principais dirigentes que participam das primárias deste domingo.

Capriles Radonski, Leopoldo López e Maria Corina Machado foram ativistas durante o golpe de Estado de abril de 2002 contra Chávez.

Capriles Radonski, então prefeito, chegou a ser preso durante quatro meses, sob acusação de ter invadido a Embaixada de Cuba em Caracas durante o golpe, em busca de membros do gabinete presidencial.

O atual governador do Estado de Zulia, Pablo Pérez, também é tido como o principal aliado do ex-governador Manuel Rosales, que se exilou no Peru depois de ser acusado pela Justiça venezuelana de corrupção.

Rosales atuou como representante dos governadores da oposição a Chávez durante o golpe fracassado.

A Aliança Opositora estima que cerca de 1 milhão de eleitores participem das primárias, que são organizadas pelo Conselho Nacional Eleitoral. 

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