Oposição deve desafiar Chávez após ganhar força

CARACAS - A oposição venezuelana tem a sua melhor oportunidade dos últimos anos para desafiar o presidente Hugo Chávez, depois de conseguir algumas vitórias importantes na eleição de domingo. Os adversários do chavismo, porém, ainda precisam encontrar uma liderança nacional mais forte e uma plataforma política.

Reuters |


Os resultados mais expressivos da oposição ocorreram em áreas urbanas, aproveitando o descontentamento de parte da população com problemas cotidianos atribuídos ao governo, como a criminalidade e a coleta de lixo.

Se conseguir atenuar tais problemas, a oposição terá uma chance real de enfraquecer Chávez e impedir que ele se mantenha no poder depois de 2013, quando termina seu atual mandato.

Mas esse movimento disparatado, que inclui militantes estudantis, tecnocratas e políticos da velha guarda, deve sofrer para conseguir contestar Chávez se não encontrar um líder carismático ou um projeto político que rivalize com a "revolução" socialista dos últimos dez anos.

Chávez, ex-pára-quedista do Exército, não esconde seu desejo de permanecer no poder por décadas e não se acanha em enfraquecer os governos estaduais de oposição com cortes de verbas, destituição com base em filigranas jurídicas e nomeação de autoridades regionais superiores aos governadores.

O chavismo mostrou sua força ao eleger 17 dos 22 governadores. Já a oposição conseguiu eleger cinco governadores e os prefeitos das três principais cidades, o que deixa cerca de metade do eleitorado sendo governado localmente por adversários de Chávez.

"A partir de agora, temos de deixar de ser uma oposição 'anti' para virar um movimento 'pró', que tenha uma atitude positiva na construção de um futuro melhor para a Venezuela a partir do centro, e não dos extremos", disse Leopoldo López, jovem astro da oposição, impedido de concorrer no domingo por causa de uma manobra jurídica dos governistas. "Não devemos buscar o confronto, e sim a união das pessoas no centro", afirmou.

Um desafio para a oposição será demonstrar capacidade administrativa nas caóticas favelas onde o esgoto a céu aberto, as pilhas de lixo e o crime organizado tiraram parte da popularidade de Chávez entre os mais pobres.

E os novos líderes têm de evitar que as disputas políticas os distraiam das necessidades do dia-a-dia, uma armadilha na qual Chávez caiu ao permitir que visões revolucionárias grandiloquentes ofuscassem questões básicas.

Centralização

A votação de domingo ampliou uma recuperação da oposição que já havia começado em dezembro, quando em referendo a população rejeitou uma reforma que daria mais poderes a Chávez e lhe autorizaria a disputar a reeleição novamente.

Até então, o presidente nunca havia perdido uma eleição. Em 1998, ao ser eleito, acabou com décadas de hegemonia de dois partidos tradicionais, AD e Copei. Entre 2001 e 2002, enfrentou uma prolongada greve geral patrocinada pela oposição, além de uma tentativa de golpe. Nas eleições de 2004 e 2005, ele e seus partidários venceram, em meio a um boicote da oposição.

Nos últimos meses, a queda na cotação do petróleo ameaça prejudicar os programas sociais do governo, combustível da popularidade de Chávez, que promete tentar novamente a reforma para prolongar sua permanência no poder.

Apesar dos avanços, a oposição continua dispersa - nenhum partido elegeu mais de um governador - e sem capacidade de organização, enquanto Chávez conta com uma bem-azeitada máquina de mobilização popular nas localidades mais remotas e miseráveis.

Assim como barrou López desta vez, o governo diz que pode impedir outros rivais de concorrerem no futuro, e Chávez prometeu até mesmo prender o líder oposicionista Manuel Rosales.

Chávez também pode pressionar governadores rivais com o torniquete da distribuição dos dividendos do petróleo. E, ao mesmo tempo, centraliza cada vez mais o poder. Nos últimos meses, retirou os hospitais e a polícia de Caracas da esfera municipal, e assumiu por decreto a autoridade para escolher autoridades locais que substituam o trabalho de seus adversários.

"A Venezuela tem um sistema político altamente centralizado, em que os governadores e prefeitos desempenham um papel muito marginal", disse Patrick Esteruelas, do Eurasia Group, de Nova York. "A oposição ganhou visibilidade e presença, mas não ganhou poder."

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