Representantes da oposição na Bolívia disseram nesta terça-feira que diminuíram a quantidade de gás enviado ao Brasil, em uma tentativa de pressionar o governo do presidente Evo Morales. O presidente do Comitê Cívico do departamento (Estado) de Tarija, Reinaldo Bayard, disse à BBC Brasil que ele e outros opositores fecharam, nesta terça-feira, uma válvula no gasoduto na cidade de Villamontes, um dos principais centros petroleiros do país.

Isso teria reduzido a pressão do gás que é enviado ao mercado brasileiro.

"Mas nossa intenção é ir além, encontrando lugares onde podemos interromper diretamente esse abastecimento. Tudo para ver se o governo nos ouve. Não vamos desistir desta luta", disse Bayard.

Antes, o presidente do Comitê Cívico de Villamontes, Felipe Moza, disse que quatro outras válvulas, na mesma região, tinham sido fechadas, interrompendo parte do abastecimento de gás ao mercado brasileiro. "Não mandamos mais gás ao Brasil até que o governo atenda nossas demandas", disse Moza à imprensa boliviana.

Hugo Muñoz, assessor de relações institucionais da empresa Transierra, que administra o duto em Villamontes, reconheceu que grupos de opositores entraram nas instalações da companhia.

Entretanto, o novo ministro de Hidrocarbonetos, Saúl Ávalos, disse que o abastecimento do Brasil não tinha sido afetado.

"Sabemos que houve tentativa (de suspender esse fornecimento). Mas estamos aguardando balanço do Ministério da Defesa, que acompanha a situação no lugar", disse.

"Até agora sabemos que o abastecimento está garantido. Mas, como pasta de hidrocarbonetos, temos o objetivo de garantir a produção. E cabe ao Ministério da Defesa garantir a exportação".

Uso da força
Ávalos disse que a lei autoriza o "uso da força pública" para casos como estes.

Os departamentos de Tarija, Santa Cruz, Beni, Pando e Chuquisaca tem sido palco há meses de protestos contra Morales.

A oposição nessas regiões é contra a decisão de Morales de cortar o repasse de verbas obtidas pelo setor petroleiro para os departamentos. O governo Morales diz que está usando os recursos para pagar benefícios a aposentados.

Os protestos também são contra a nova constituição, cujo texto foi aprovado no fim do ano passado, mas não tem apoio da oposição. Para que entre em vigor, o texto ainda precisa ser aprovado em um referendo.

Fontes do Ministério da Defesa também confirmaram a tentativa de dificultar o envio de gás ao mercado brasileiro.

"A situação é muito complicada. Ocuparam aeroportos, estradas, repartições públicas", disse a fonte militar.

Morales convocou reunião de emergência para avaliar a situação.

Modelo alemão
O departamento de Tarija possui mais de 80% das reservas de gás da Bolívia e está paralisado pelos protestos e por uma greve iniciada há vários dias.

"Se o governo não atende nossas demandas, vamos para a verdadeira autonomia do restante do país", disse por telefone à BBC Brasil a vice-presidente do Comitê Cívico de Tarija, Patricia Galarza.

"Nós dos cinco departamentos opositores estamos discutindo um modelo de autonomia que nos faça parecer com a Alemanha (antes da queda do Muro de Berlim), por exemplo. Ou seja, uma oriental e outra ocidental", disse.

No leste da Bolívia estão províncias com mais recursos naturais, como gás e plantação de soja, e é lá que se concentra a oposição a Morales. No oeste, vive a maior parte da população indígena, e é onde o presidente conta com mais apoio.

Nesta terça-feira, opositores voltaram a ocupar prédios públicos em Tarija, Santa Cruz e Beni.

Nestas regiões, foram registrados ainda enfrentamentos entre civis e agressões a militares.

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