Ópio mata mais em países da Otan que guerra no Afeganistão, diz ONU

Um relatório divulgado nesta quarta-feira pelo Escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crime (UNODC, na sigla em inglês) sugere que a quantidade de ópio produzida no Afeganistão mata mais pessoas dos países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) que a guerra em território afegão. Segundo o documento, cerca de dez mil pessoas morrem pelo consumo de heroína todos os anos nos países da aliança - um número cinco vezes maior do que o total de soldados da Otan mortos no Afeganistão desde o início da ofensiva, em 2001.

BBC Brasil |

Na Rússia - o país mais afetado pela droga - o total de 30 mil mortes anuais causadas pelo consumo é maior do que o total de mortos na campanha da antiga União Soviética no país entre 1979 e 1989.

De acordo com a UNODC, o mercado de ópio gera um negócio de US$ 65 bilhões, financia o terrorismo global, abastece 15 milhões de viciados em opiáceos e mata 100 mil pessoas todos os anos.

O Afeganistão produz 92% do ópio no mundo, o equivalente a 3,5 mil toneladas todos os anos.

Impacto global
Diferentemente de relatórios já publicados pela ONU sobre o ópio no Afeganistão, o mais recente não se concentra somente na produção e no tráfico, mas também na dependência, no crime e na insurgência geradas pela droga.

Segundo o diretor do UNODC, Antonio Maria Costa, o documento identificou "as consequências globais do comércio afegão de ópio".

"Alguns são devastadores, mas esperados; outros parecem surpreendentes, mas são bem reais", disse Costa.

Além do número de vítimas causadas pelo consumo dos opiáceos, o relatório destaca ainda os lucros cada vez maiores que o Talebã e outros grupos insurgentes arrecadam com os impostos cobrados pela produção de ópio no Afeganistão.

De acordo com o documento, cerca de US$160 milhões anuais do dinheiro arrecadado com a produção estariam disponíveis para apoiar atividades terroristas.

"O envolvimento direto do Talebã no comércio do ópio permite que a milícia financie a máquina de guerra que se está se tornando cada vez mais complexa e abrangente", disse Costa.

"Alguns dos que lucram com o tráfico de heroína vestem ternos e colarinhos brancos, outros turbantes pretos", afirmou.

Apreensões
O documento indica ainda que as fronteiras "sem leis, corruptas e sem controle" dificultam as apreensões das autoridades afegãs. Segundo o relatório, apenas 2% das drogas são apreendidas todos os anos, comparados com 36% na Colômbia.

As taxas de apreensão tendem a diminuir com a aproximação das drogas dos mercados mais lucrativos, já que o valor dobra a cada fronteira ultrapassada.

O relatório afirma que O Irã intercepta 20% do ópio que entra no território do país e o Paquistão 17%, mas a Rússia e outros países europeus apreendem menos de 5%.

A ONU estima que uma grama de heroína vale três dólares em Cabul, mas pode ser vendida por até cem dólares nas ruas de Londres, Milão ou Moscou.

A agência da ONU pede a intensificação dos recursos internacionais para combater o problema na fonte, ou seja, no Afeganistão e arredores, onde é mais barato garantir o cumprimento da lei.

"Eu peço aos amigos do Afeganistão que reconheçam que, em grande parte, essas verdades inconvenientes podem ser resultado de um abandono benigno".

De acordo com o documento, há uma necessidade cada vez maior de localizar e destruir os estoques de ópio afegão - a UNODC acredita que cerca de 12 mil toneladas podem estar armazenadas.

Segundo o relatório, com a oferta bem maior do que a atual demanda, há grandes preocupações de que o ópio do Afeganistão tenha o potencial de abastecer o tráfico de drogas e o terrorismo por muitos anos.

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