Operação contra talibãs no Paquistão tira mais de 360 mil civis de casa

Igor G. Barbero.

EFE |

Islamabad, 11 mai (EFE).- Mais de 360 mil civis se viram obrigados a abandonar seus lares por causa da nova operação do Exército do Paquistão contra os talibãs, cuja eficácia foi questionada por analistas consultados pela Agência Efe.

A operação, que ocorre nos distritos de Swat, Buner e Dir, na Província da Fronteira do Noroeste (NWFP, em inglês), já deixou 700 insurgentes e 20 soldados mortos, confirmou hoje o ministro do Interior paquistanês, Rehman Malik.

Com o retorno das hostilidades, também voltou o fluxo de pessoas que fogem para regiões mais seguras da NWFP.

"A crise humanitária no Sri Lanka não vai ser nada em comparação com o que é esperado aqui. Já pensamos em duplicar a ajuda aos deslocados (mais US$ 40 milhões) e é possível que, em breve, comecemos a enviar alimentos pelo ar a aldeões que estão presos no conflito", explicou à Efe um alto funcionário da ONU.

O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) registrou 360.600 deslocados desde o início de maio, 20 mil dos quais se encontram em campos na NWFP, informou à Efe a porta-voz do organismo, Ariane Rummery.

Autoridades paquistanesas e agências humanitárias calculam que o número de deslocados pode chegar a um milhão, os quais se somariam aos 550 mil que continuam sem retornar para seus lares devido às ofensivas militares iniciadas em 2008 na NWFP e em áreas tribais fronteiriças com o Afeganistão.

"São 1,7 milhão de refugiados afegãos no Paquistão e a previsão de mais de um milhão de deslocados internos. Este é um país grande, mas, olhando bem, é possível ver que o conflito afeta um quinto da população total, porque os que acolhem as pessoas também são afetados", expôs a fonte da ONU.

A nova ofensiva ocorre após a ruptura do acordo de paz alcançado em fevereiro com os talibãs de Swat, que aproveitaram a trégua para avançar rumo a distritos vizinhos como Dir, Shangla e Buner, este último localizado a apenas cem quilômetros de Islamabad.

Além dos números divulgados pelo ministro Malik, o Exército do Paquistão informou em comunicado sobre a morte hoje de 52 fundamentalistas e de três membros das forças de segurança, isso tudo apenas em Swat.

Embora reivindicada pelos Estados Unidos, a operação é alvo de ceticismo entre os analistas consultados pela Efe, que temem uma repetição das infrutíferas ofensivas anteriores.

"Desta vez, o Exército age seriamente em sua ação contra a insurgência e conta com o apoio da sociedade paquistanesa após o fracasso do acordo de paz", defendeu Hasham Babar, vice-secretário do partido que lidera o Governo em NWFP.

A fonte admitiu à Efe que as tropas "não estão treinadas para combater a guerrilha", mas garantiu que "estão tendo cautela para evitar danos colaterais ao máximo".

A baixa presença da imprensa e de organismos independentes no terreno torna impossível saber quantos civis já foram mortos por causa do conflito.

Os deslocados que chegam aos campos se queixam da dureza da ofensiva militar, e questionam, segundo alguns analistas, a existência de elementos favoráveis aos talibãs.

"O comando militar sempre diz ter matado centenas de insurgentes, mas como estão tão seguros disso? Entre os mortos, um terço é de civis... é um prato cheio para a guerrilha", opinou à Efe uma fonte de inteligência ocidental.

Acrescentou que se trata de "uma guerra desigual" já que, embora o Exército "comece com força, depois de uns dias os talibãs se retirarão, se dispersarão e se esconderão entre a população civil, e voltarão a suas táticas de ataques pontuais a comboios e de sequestros".

Para Babar, a solução residiria em "uma ação coordenada das forças estrangeiras no Afeganistão, com a liderança dos EUA, e do Exército paquistanês, tanto no cinturão tribal, quanto na NWFP".

"Caso contrário, se conseguirá apenas que os militantes fujam para outras áreas", observou.

A fonte de inteligência afirmou que, para conduzir "uma estratégia integral, seria preciso utilizar muito mais força, e não apenas ter soldados em postos de controle".

"Em um conflito de guerrilha, deveriam utilizar no mínimo cinco soldados por rebelde. O problema é que o Exército paquistanês se opõe a retirar tropas da fronteira com a Índia", ressaltou, para acrescentar que "os talibãs defendem uma ideologia, e isto não se combate com tiros de canhão". EFE igb/bba

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