ONU: taxas de câmbio devem estar sujeitas a controle multilateral

Marta Hurtado. Genebra, 19 mar (EFE).- A Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad, em inglês) alerta em seu mais recente relatório que os ajustes nas taxas de câmbio não podem ficar nas mãos do mercado e devem estar sujeitos a um controle multilateral para evitar a especulação, causa da atual crise.

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Esta é uma das principais recomendações que a Unctad faz em seu relatório "A Crise Econômica Mundial: Fracassos Sistêmicos e Remédios Multilaterais", apresentado hoje.

"As remodelações nas taxas de câmbio nominais deveriam mostrar as diferenças nas taxas de inflação entre os países. Dessa forma, as taxas de câmbio reais se manteriam estáveis, o que permitiria uma concorrência real entre produtores de diferentes países e preveniria a potencialmente prejudicial especulação", diz o relatório.

Segundo os economistas da Unctad, nas duas últimas décadas, tornou-se comum o procedimento de pedir dinheiro emprestado nos países com juros baixos para investi-lo em nações com altas taxas de juros, fazendo com que a moeda do segundo país se valorizasse artificialmente.

O texto mostra como moedas que estavam supervalorizadas sofreram uma desvalorização que multiplicou os efeitos da crise, e cita inclusive o caso do real, que desvalorizou 34% em relação ao dólar.

O documento lembra também dos casos da coroa islandesa, que desvalorizou 51%; do florim húngaro (34%); do rande sul-africano (38%); da lira turca (33%); do peso mexicano (29%), e do peso chileno (28%).

"A especulação das moedas nos anos recentes foi uma das causas da crise global", diz o relatório, sugerindo uma coordenação global como única solução.

Segundo o estudo, "nem os passos tomados por países de forma individual para limitar as taxas de câmbio com outras moedas ou, ao contrário, deixá-las valorizar livremente, previnem o abuso, e a única solução é um acordo global".

Para alcançá-lo, a Unctad sugere um sistema de coordenação entre as moedas "centrais" e as "satélites" nas quais sejam utilizadas taxas de câmbio reais.

É sugerida ainda a criação de "um bônus global" que seria usado como base para a troca das moedas a uma taxa de câmbio fixo.

O relatório deixa claro que o súbito aumento dos preços das matérias-primas em geral (e dos alimentos em particular) se deveu em grande medida à especulação em grande escala e sem qualquer relação com a economia real.

Processo similar teria acontecido com o mercado imobiliário, o qual, segundo o relatório, foi tratado como uma casa de apostas.

"São necessárias reformas urgentes para regular o sistema financeiro internacional, uma normativa que não deve ficar limitada a certos instrumentos de investimento, mas ao sistema em geral, porque sempre serão criados novos instrumentos para evitar as leis", diz o texto.

O economista-chefe da Unctad, Heiner Flassbeck, diz que é necessário "acabar com o cassino especulativo que foi o mundo nos últimos anos; é preciso frear essa especulação massificada e, sobretudo, soluções para evitar que aconteça de novo, senão todos os pacotes de resgate não terão servido para nada".

É por isso que a Unctad sugere uma regulação global, que ataque o sistema e que abranja todas as áreas citadas, que lute contra todos os tipos de especulação e que evite uma crise similar no futuro, em um processo que, segundo o organismo, deve ser liderado pela ONU.

"As Nações Unidas devem ter um papel central neste processo de reforma porque provaram sua capacidade de apresentar análises imparciais e recomendações políticas práticas". EFE mh/bba/mh

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