Por Patrick Markey e Patricia Zengerle PORTO PRÍNCIPE (Reuters) - Soldados da ONU usaram gás lacrimogêneo e gás pimenta nesta terça-feira contra haitianos que disputavam desesperadamente a comida distribuída em frente às ruínas do Palácio Presidencial, duas semanas depois do terremoto que devastou Porto Príncipe.

"Eles não são violentos, só desesperados. Só querem comer", disse o coronel brasileiro Fernando Soares. "O problema é que não há comida para todos."

O Brasil lidera a Minustah, missão de paz da Organização das Nações Unidas (ONU) no Haiti.

Os Estados Unidos e a ONU tentam dar alimento, abrigo e atendimento médico a centenas de milhares de sobreviventes, muitos deles feridos.

Porém, muitos haitianos se queixam de que ainda não receberam a ajuda internacional que chega em grande quantidade ao país desde o terremoto de magnitude 7,0, que matou até 200 mil pessoas.

Algumas operações de distribuição de alimentos na capital resultam em tumulto.

Nesta terça-feira, no Palácio Presidencial, soldados da ONU, armados com pistolas, entregavam sacos de arroz com a bandeira dos EUA. Caminhões blindados formavam um cordão para controlar a multidão, e as pessoas eram submetidas a revistas.

"Ontem nos deram arroz, mas não foi suficiente. Havia gente demais", disse Wola Levolise, de 47 anos, que está refugiada com seus nove filhos em um acampamento improvisado.

Os EUA já despacharam mais de 15 mil militares para o Haiti. Cerca de 4.700 estão em terra, e os demais ficaram em navios na costa.

Os militares dos EUA dizem que devem reduzir gradativamente seu envolvimento nos próximos três a seis meses, conforme outras organizações internacionais assumirem um papel maior nas tarefas humanitárias e de segurança. Antes disso, os soldados norte-americanos devem ajudar na construção de um hospital com 5.000 leitos.

AOS POUCOS, NORMALIDADE

Há sinais de que a arruinada capital vai lentamente voltando à vida normal. Um caminhão municipal de lixo recolheu pilhas de detritos em um acampamento perto da igreja de São Pedro, e uma longa fila se formava diante de uma agência bancária no bairro de Petionville. Na rua Geffrard, havia uma feira lotada e caótica.

A operação humanitária vem dando lugar aos trabalhos de recuperação, e as autoridades pretendem transferir nesta semana 400 mil pessoas de 400 acampamentos precários espalhados pela cidade para aldeias temporárias, feitas com barracas, nos arredores de Porto Príncipe.

O ministro da Saúde, Alex Larsen, informou que 1 milhão de haitianos ficaram desalojados na região de Porto Príncipe. O governo tem tendas para abrigar 400 mil pessoas nos novos assentamentos temporários, e precisaria de milhares de outras.

O primeiro-ministro, Jean-Max Bellerive, fez um apelo urgente a doadores reunidos na segunda-feira em uma conferência em Montreal, no Canadá, para o envio de 200 mil barracas adicionais.

Ainda há tremores quase diários em Porto Príncipe, e já se discute a possibilidade de que a cidade tenha de ser reconstruída em um local mais seguro, a salvo das falhas geológicas.

"Em 30 segundos, o Haiti perdeu 60 por cento do seu Produto Interno Bruto (PIB)", disse Bellerive, referindo-se à concentração de pessoas e empresas na capital. "Então temos de descentralizar."

Bellerive agradeceu à comunidade mundial pela ajuda recebida até agora, mas disse seu país terá de receber "cada vez mais" para ser reconstruído. "O que estamos buscando é um compromisso de longo prazo (...). Pelo menos cinco a dez anos."

A secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, o primeiro-ministro do Canadá, Stephen Harper, e os chanceleres do Brasil, Celso Amorim, e da França, Bernard Kouchner, participaram do evento em Montreal, junto a representantes de nove outros governos.

O grupo decidiu realizar em março, na sede da ONU em Nova York, uma nova conferência para receber promessas de doações.

(Reportagem adicional de Jackie Frank, Matthew Bigg, Joseph Guyler Delva e Carlos Barria, no Haiti, e de Randall Palmer em Montreal)

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