ONU lança operação para ajudar vítimas de confronto no Sudão do Sul

Balanço não-oficial feito por chefe local estima que conflito tribal no Estado de Jonglei deixou cerca de 3 mil mortos

iG São Paulo |

A Organização das Nações Unidas (ONU) lançou uma operação humanitária de emergência para enfrentar a crise suscitada pela violência entre tribos de diferentes etnias em Jonglei, no Sudão do Sul.

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Reuters
Refugiados sentam sob árvore em Pibor, no Estado de Jonglei, Sudão do Sul (5/1/2012)

A operação pretende ajudar cerca de 50 mil vítimas dos enfrentamentos tribais que aconteceram nos últimos dias em Jonglei, um dos dez Estados que fazem parte do país africano.

O plano é organizado pelo Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (Ocha), e nele participam o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e o Programa Alimentar Mundial (PAM), a Organização Internacional para Migrações (OIM) e o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur).

Segundo comentaram em entrevista coletiva, os porta-vozes dessas instituições, o principal problema é chegar até as vítimas, uma vez que a maioria, fugindo da violência, se refugiou em uma ampla região de floresta de difícil acesso.

Por essa mesma razão, a ONU não quis dar estimativas sobre o número de mortos, pela dificuldade de contabilizar os dados. Mas um chefe da administração da região de Pibor, cenário dos massacres, mais de 3 mil morreram nos confrontos na semana passada. "Contamos os mortos e calculamos que até o momento morreram 2.182 mulheres e crianças, assim como 959", afirmou à AFP Joshua Konyi.

Esse balanço, no entanto, não foi confirmado oficialmente. "De fato tivemos vítimas, mas não dispomos de detalhes e nesse momento não podemos confirmar o que disse o chefe da administração local", afirmou o ministro da Informação do Estado de Jonglei, Isaac Ajiba, à AFP.

Por sua parte, os Capacetes Azuis e o pessoal da missão da ONU no Sudão do Sul (MINUS) viram várias dezenas de corpos na cidade de Pibor, segundo o chefe das operações de manutenção da paz, Hervé Ladsous.

Segundo a ONU, os retornos para a casa começam a acontecer, e 4,7 mil já voltaram, a maioria deles, arrasada pelo fogo dos enfrentamentos. Até o momento, foram retirados 46 feridos, embora esse número possa se elevar nas próximas horas.

O PAM estima que poderá alimentar cerca de 7 mil pessoas nos próximos dias, mas adverte que dada a situação de insegurança alimentícia no país recém-criado, calcula-se que, em 2012, deveria alimentar cerca de 2,7 milhões de moradores.

De fato, segundo os dados do Unicef, 8% da população sofre severa desnutrição, 21% sofre desnutrição moderada, um terço da população não tem acesso a água potável e 15% não conta com saneamento adequado.

A Unicef relatou denúncias de sequestros de pelo menos 8 crianças, e que 45 menores não estão acompanhados. Já o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), António Guterres, viajará ao Sudão do Sul neste fim de semana, e posteriormente visitará o Sudão entre 10 e 13 de janeiro.

A convocatória humanitária da ONU para o Sudão do Sul em 2012 chega a 763 milhões, e até o momento está coberta em 8%.

Conflito étnico

Há anos, confrontos e vinganças opõem duas tribos nesta zona do leste do país, os Lu Nuer e os Murle, provocando inúmeras vítimas. Os conflitos interétnicos constituem um dos principais desafios que enfrenta a jovem nação do Sudão do Sul, que chegou à independência em julho passado.

Os confrontos foram exarcebados por duas décadas de guerra civil entre o norte e o sul do Sudão, o que alimentou as rivalidades históricas entre as diferentes tribos, que, às vezes, foram instrumentalizadas por Cartum.

Só no estado de Jonglei, os ataques a acampamentos para roubar cabeças de gado e as operações de represálias fizeram mais de 1,1 mil mortos em 2011 e obrigaram a 63 mil habitantes a abandonar suas aldeias, segundo relatório da ONU. Em agosto, 600 morreram e 985 ficaram feridas durante ataques dos Murle contra as aldeias dos Lu Nuer.

Como vingança, na semana passada, 6 mil jovens armados da tribo Lu Nuer avançaram para a localidade de Pibor e seus arredores, habitados pela tribo Murle, que acusam de ter roubado gado.

Eles só deixaram a região quando o Exército do Sudão do Sul abriu fogo. Confrontos e vinganças são frequentes nas duas tribos há muitos anos por questões relacionadas à propriedade de gado.

"Houve assassinatos em série, uma verdadeira matança", informou Konyi, que é um Murle. Segundo ele, mais de mil crianças estão desaparecidas, sem dúvida sequestradas pelos Lu Nuer, e milhares de cabeças de gado foram roubadas.

O governo classificou o estado de Jonglei de "região danificada" e pediu às tribos que devolvam as mulheres e as crianças sequestrados por ambas as partes.

Com AFP e EFE

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