ONU culpa comunidade internacional por mazelas femininas

Joaquim Utset. Nações Unidas, 18 set (EFE).- A passividade de Governos e organismos multilaterais abriu uma profunda brecha entre as promessas de igualdade da comunidade internacional e a precária situação em que vive a maioria das mulheres, denunciou hoje o Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (Unifem).

EFE |

O organismo, dirigido pela espanhola Inés Alberdi, exigiu em um relatório apresentado hoje na sede das Nações Unidas que se adotem mecanismos para cumprir os compromissos com a mulher adquiridos nos últimos anos pela comunidade internacional.

O estudo ressalta que uma em cada dez mulheres ainda morre por complicações na gravidez ou no parto, que a mulher ganha em média 17% menos que o homem pelo mesmo trabalho e que há três mulheres para cada dois homens infectados pelo HIV na África Subsaariana.

Ele assegura que "a persistência de uma discriminação desta escala após décadas de adoção de compromissos internacionais e nacionais" é uma prova de que não se pediu uma prestação de contas àqueles que assumiram essas responsabilidades.

"Os Governos e os organismos multilaterais, como a ONU, tomaram posturas em reconhecimento dos direitos e das necessidades da mulher, mas a realidade não está de acordo com essas promessas", disse Alberdi em entrevista à Agência Efe.

A diretora da Unifem afirmou que o relatório pretende chamar a atenção e "questiona quem vai responder a estas promessas que levantaram tanta expectativa sobre a igualdade de gênero".

O documento lembra que a mulher continua sendo a principal afetada pela falta de serviços, a vítima mais fácil da corrupção e a que mais sofre com a falta de alimentos, porque costuma ser a responsável por alimentar a família.

Nesse sentido, afirma que as 40 bilhões de horas que as mulheres da África Subsaaariana gastam para buscar água, devido à falta de infra-estrutura na região equivalem ao horário anual de trabalho dos franceses.

O relatório acrescenta que o futuro dos direitos da mulher depende da ajuda de administrações, líderes e organismos, e pede o aumento da participação da mulher na vida política, na qual atualmente há quatro homens para apenas uma mulher.

O documento considera que "a participação direta da mulher nos processos de adoção de decisões foi há muito tempo visto não somente como um assunto de justiça democrática, mas também como uma maneira de assegurar que os Governos respondam às necessidades da mulher".

Alberdi disse que as mulheres estão "mais do que nunca presentes na vida política internacional, nacional e regional, mas ainda há uma distância muito grande".

Por isso, tal como afirma o relatório, Alberdi defendeu a adoção de sistemas de cotas de participação política como o mecanismo "mais efetivo" de assegurar o progresso da mulher na vida pública.

A responsável pela Unifem citou como exemplo Noruega, Espanha e países em desenvolvimento como Ruanda, nos quais o aumento da presença de mulheres na política "impulsionou" o cumprimento dos compromissos pela igualdade de gênero.

O relatório ainda adverte que 18 dos 22 países que contam com uma presença parlamentar feminina superior a 30% têm algum tipo de sistemas de cotas.

Sem as cotas, ao ritmo atual não se alcançará a paridade dos sexos nos órgãos legislativos dos países em desenvolvimento até 2045, segundo o documento.

Para Alberdi, essa falta de representação política contribui para que a redução da mortalidade materna seja um dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio que está mais longe de ser alcançado.

Alberdi também observou que os organismos multilaterais devem aumentar seu interesse em se assegurar de que os compromissos estão sendo cumpridos e de que existem mecanismos para comprová-lo.

Ela citou como exemplo a resolução 1.325 do Conselho de Segurança que aborda o impacto da guerra na mulher e seu papel na construção e resolução de conflitos.

Segundo ela, esse documento não inclui atuações para vigiar o cumprimento de suas disposições, como faz a resolução 1.612 sobre a infância e os conflitos.

O relatório também solicita a adoção de reformas legais que facilitem o acesso da mulher ao sistema judiciário e a ajude a apresentar denúncias às autoridades policiais. EFE jju/ab/rr

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