ONU continua esperando que Mianmar permita a entrada de ajuda sem restrições

Fernando Mullor-Grifol Bangcoc, 10 mai (EFE).- As Nações Unidas continuam esperando que a Junta Militar de Mianmar suspenda todas as restrições aos envios de carga e pessoal para atender os desabrigados pelo ciclone Nargis, apesar de dois aviões com ajuda terem partido hoje em direção a Yangun após dois caminhões terem entrado no país.

EFE |

Os dois veículos do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (Acnur, em inglês) entraram em Mianmar procedentes da vizinha Tailândia com 20 toneladas de ajuda.

Horas depois, partiam de Bangcoc dois aviões C-130 Hercules da Força Aérea Tailandesa com ajuda humanitária do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) da Tailândia e de uma fundação da família real.

As aeronaves levam 900 bolsas com artigos de primeira necessidade (leite em pó, água potável, comida, mosquiteiros, pastilhas purificadoras de água e geradores de energia elétrica) para serem distribuídos ao 1,5 milhão de desabrigados.

Uma carga com dez toneladas de itens de primeiros socorros, doada pelo rei da Tailândia, Bhumibol Adulyadej, e que será levada pessoalmente pelo chefe da Força Aérea Tailandesa, Chalit Phukpasuk, deve partir amanhã em outro avião militar com destino a Yangun.

O representante do Acnur na Tailândia, Raymond Hall, disse que a organização aguarda a abertura de um corredor para que mais ajuda internacional possa chegar às vítimas do ciclone, mas explicou que a entrada hoje do comboio terrestre "é um passo positivo em um trabalho de assistência marcado, até o momento, por desafios e restrições".

Os dois veículos, que transportavam tendas e lonas para dez mil pessoas, cruzaram a fronteira às 13h07 (3h07 em Brasília) vindos da localidade tailandesa de Mae Sot, a 280 quilômetros a leste de Yangun e a 400 quilômetros a noroeste de Bangcoc.

"O que enviamos por terra se soma aos artigos que temos em Yangun e às cem toneladas que devemos enviar hoje de avião de Dubai", acrescentou Hall.

As agências de ajuda humanitária se queixam há cinco dias da parcimônia com que as autoridades birmanesas concedem as permissões de carga e os vistos de entradas de pessoas.

A Human Rights Watch pediu hoje à China, à Índia e aos membros da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean) para pressionarem a Junta Militar com o intuito de suspenderem as restrições à entrada de ajuda humanitária.

"Mediante o bloco dos esforços de assistência, o Governo birmanês mostra o desprezo que tem com seu próprio povo", declarou o diretor da Human Rights Watch para a Ásia, Brad Adams.

A Secretaria-Geral da Asean, integrada por Mianmar, Brunei, Indonésia, Filipinas, Camboja, Laos, Malásia, Cingapura, Tailândia e Vietnã, escreveu esta semana ao Governo de Nay Pyi Taw para pedir maior colaboração com a ONU e com outras agências humanitárias.

O diretor-geral da ONG Visão Mundial Austrália, Tim Costello, disse em Yangun que a ajuda chega aos desabrigados, mas não na quantidade na qual chegaria se as restrições e objeções fossem suspensas.

"A impressão de que a ajuda não está chegando é equivocada. Na realidade estamos dando assistência em algumas das áreas mais remotas e afetadas, mas sabemos que há gente esperando, sabemos que há ameaças de epidemias e sabemos que necessitamos que a ajuda flua pelos canais com toda sua capacidade", declarou Costello.

Enquanto a comunidade internacional tenta que a Junta Militar atenda a razões humanitárias, os afetados pelo "Nargis" sofrem com falta de alimentos, água, teto e condições de higiene, que, com o passar dos dias, se une à ameaça de epidemias e atos de pilhagem.

Segundo informações do Escritório de Coordenação Humanitária das Nações Unidas (Ocha, em inglês), o número de mortos pode ficar entre 63 mil e mais de cem mil, enquanto os desaparecidos chegam a 220 mil, enquanto as vítimas do ciclone oscilam entre 1,2 milhão e 1,9 milhão.

A rede de televisão birmanesa "MRTV" informou hoje que 23.335 pessoas morreram, 1.403 ficaram feridas e que há 37.019 desaparecidos.

A ONU solicitou US$ 187 milhões para dar ajuda humanitária urgente e imediata à população afetada em Mianmar.

Marcus Prior, do Programa Mundial de Alimentos em Bangcoc, disse hoje que a situação "é frustrante" e afirmou que eles não vão se render, pois, embora o regime birmanês queira distribuir a assistência humanitária, eles têm o compromisso de garantir que a solidariedade internacional chegue às mãos dos necessitados. EFE fmg/wr/fal

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