ONG acusa China de manipular cobertura de Olimpíada

A organização não-governamental Repórteres Sem Fronteiras emitiu um comunicado nesta terça-feira acusando o governo da China de emitir uma diretiva politizando e manipulando a cobertura da Olimpíada. A lista de diretrizes contém 21 pontos que a imprensa chinesa foi obrigada a seguir durante os Jogos, sob pena de ser notificada pelo Departamento de Propaganda do governo.

BBC Brasil |

O jornal de Hong Kong South China Morning Post já havia mencionado a existência do documento em uma reportagem publicada há duas semanas, mas somente agora a ONG conseguiu ter acesso ao conteúdo das diretrizes, que foram postadas na internet por um blogueiro chinês.

"Nós pedimos que o Comitê Olímpico Internacional, COI, investigue essa diretiva de censura, que é uma violação das garantias dadas em 2001 e um desrespeito ao livre fluxo de notícias na China", afirma o comunicado da RSF.

Segundo a organização, o documento revela que "o Partido Comunista, organizador dos Jogos, estava claramente com medo de que o evento fosse atrapalhado por notícias sobre esporte, política e internacional".

Regras
A lista de 21 pontos detalha tópicos que a imprensa chinesa teve de evitar mencionar durante a cobertura do evento - alguns assuntos são claramente delicados, mas outros não apresentam razão para polêmica à primeira vista.

"Não é surpresa que o departamento de censura do Partido Comunista tenha banido a cobertura sobre demonstrações de grupos pró-Tibete ou a existência de áreas para protesto em Pequim, mas as instruções relativas à segurança alimentar e aos resultados da equipe chinesa são espantosas", afirmou a organização.

O ponto 21 da diretriz proíbe os jornalistas de questionar o desempenho dos atletas e o processo de seleção para o time olímpico chinês. Na prática, vários talentos são recrutados muito jovens e vão para campos de treinamento quando ainda são crianças.

Segurança também é outra preocupação do governo. No item 17, o documento pede que a imprensa se detenha à versão oficial dos fatos publicada pela agência estatal Xinhua, ao reportar incidentes envolvendo estrangeiros.

Um exemplo disso foi o caso do turista americano esfaqueado no segundo dia da Olimpíada na Torre do Tambor em Pequim. Jornalistas chineses chegaram a apurar informações independentemente, mas tiveram seus blocos de notas apreendidos por agentes do governo.

No ponto 19 a diretriz repete claramente o pedido de que os jornalistas reportem de maneira "positiva" as questões de segurança.

Limite
Os limites impostos pelo departamento de Propaganda no ponto 13 sugerem que os jornalistas se abstenham de dar notícias sobre Mianmar, Darfur e Coréia do Norte, tópicos da política externa chinesa que são visto com reprovação pelo ocidente.

A diretriz também proíbe qualquer menção à existência de alimentos cancerígenos na capital (ponto 8), o desbloqueio de sites censurados na internet, incluindo o da RSF (ponto 2), e críticas à cerimônia de abertura (ponto 10).

A cerimônia foi um tema amplamente discutido pela imprensa ocidental, que se mostrou surpresa após a revelação de que a artista mirim que cantou na abertura estava apenas fingindo, já que a canção era na verdade uma gravação com a voz de outra menina.

O assunto chegou a ser noticiado pela imprensa estatal - mas assim que usuários da internet começaram a expressar em fóruns da rede revolta com o ocorrido, o governo suspendeu a cobertura da polêmica.

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