Onde se esconde o homem que revelou segredos dos EUA?

Considerado fugitivo pela Interpol, o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, estaria ocupado tentando proteger o site de ataques

iG São Paulo |

Tido como fugitivo por autoridades internacionais e pela própria Interpol, o fundador do site WikiLeaks, Julian Assange, está na Grã-Bretanha e a polícia conhece seu paradeiro, mas até agora evitou cumprir um mandado internacional para a prisão dele. Até agora esta é a principal suspeita sobre onde está o homem que revelou segredos da diplomacia americana.

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Fundador da Wikileaks, Julian Assange nega a acusação de crime sexual
Mas a verdade é que Assange também poderia ser preso em qualquer um dos 188 países - membros da Interpol - do Afeganistão ao Zimbábue - e ser extraditado para a Suécia. As pistas sobre onde se esconde o homem que irritou a Casa Branca e países aliados, e ganhou as manchetes internacionais nesta semana ainda são escassas.

Conhecidos de Assange contam que ele tinha fama de ser paranoico mesmo antes de estar sendo procurado por todos. Todos, neste caso, são os EUA - onde advogados do governo esperam poder processá-lo por espionagem - e a União Europeia, onde ele é procurado em uma investigação de estupro na Suécia.

De origem australiana e aos 39 anos, o criador do site que divulgou milhares de documentos diplomáticos secretos dos Estados Unidos, informou a polícia britânica sobre seus contatos assim que chegou ao país, em outubro. De acordo com a imprensa britânica, a Scotland Yard está há mais de um mês em contato com os advogados do acusado e só espera receber instruções para fazer a detenção, diz a publicação. O jornal britânico Independent citou como fonte policiais que disseram saber onde Assange está hospedado e o número do telefone dele. Segundo o diário, acredita-se que ele esteja no sudeste da Inglaterra.

Se Assange ainda estiver no Reino Unido e conseguir manter seu paradeiro uma incógnita, ele poderia evitar a prisão. Mas no outono, no entanto, seu visto de seis meses no país vai expirar, criando mais problemas para ele. 

Amigos de Assange afirmam que ele tem se ocupado nos últimos dias tentando proteger o WikiLeaks de diversos ataques de hackers. Os amigos do fundador do WikiLeaks se negaram a revelar seu atual paradeiro devido às ameaças de morte recebidas.

Exposição

Não seria seguro para Assange aparecer pessoalmente a uma entrevista coletiva, mas ele mostrou esta semana que pode continuar a se comunicar com jornalistas de forma virtual - através de vídeos pré-gravados em telefone celular, ou via Skype.

De acordo com o repórter do New York Times John F. Burns, que entrevistou Assange em outubro, ele muda de telefones celulares "como se muda de camisa", usa dinheiro em vez de cartões de crédito e fica hospedado com amigos, ou em hotéis, com nome falso. Quando os dois se encontraram em um restaurante etíope em Londres, Assange falou aos sussurros, por medo de estar sendo alvo de escuta de agentes de inteligência ocidentais.

Outro jornalista, que conheceu Assange no começo do ano, disse à BBC que seu comportamento "extradesconfiando" tornou o encontro desnecessariamente esquisito. "Você faz a ele uma pergunta nada nociva - e ele olha para você como se dissesse 'Por que você quer saber?'", disse o repórter.

E àquela época Assange não era um homem procurado. Sua liberdade e seu direito de ir e vir foram seriamente restringidos recentemente.

Viagens

Em abril ele viajou para Washington, para mostrar, no Clube Nacional de Imprensa, um vídeo de um helicóptero militar dos EUA matando 12 pessoas em Bagdá, em 2007, entre eles dois jornalistas da Reuters.

A posição dele ficou mais difícil em julho, depois de o WikiLeaks ter vazado 77 mil documentos militares dos EUA sobre o conflito no Afeganistão, e ainda mais com a publicação de cerca de 400 mil documentos secretos sobre a guerra do Iraque, em outubro.

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Tela do site da Interpol coloca Assange como "procurado"
Assange ainda conseguiu vazar documentos sobre o Iraque para a imprensa em uma coletiva em Londres, apesar de autoridades dos EUA já estarem começando a falar à época de um possível processo por espionagem.

Um possível obstáculo para a abertura de um processo sob a Lei de Espionagem americana seria a Primeira Emenda da Constituição dos EUA - que garante liberdade de expressão e de imprensa. Já foi dito, entretanto, que a Primeira Emenda não impediria Assange de ser enquadrado na Lei de Espionagem, sob acusação de se recusar a entregar informação a autoridades, apesar de pedidos formais de devolução. O Departamento de Estado dos EUA fez tal pedido no sábado, antes do início da divulgação pelo site Wikileaks da mais recente série de documentos.

Estupro

Após o vazamento dos documentos sobre o Afeganistão, Assange viajou à Suécia e pediu residência e um visto de trabalho no país. Com uma tradição forte de leis que defendem a liberdade de imprensa, o país poderia se tornar um refúgio seguro para Assange.

Entretanto, ele rapidamente foi acusado de estupro e abuso sexual por duas mulheres suecas, o que  representa a mais imediata ameaça à sua liberdade. Ele nega ter feito algo de errado, dizendo que fez sexo com as mulheres de forma consensual.

Em novembro um pedido de prisão foi emitido contra ele, para permitir que as autoridades suecas o interrogassem. Assange apelou contra os dois pedidos junto à Justiça sueca, mas não teve sucesso - o segundo foi negado nesta quinta-feira.

O advogado de Assange em Londres, Mark Stephens, disse que a Ordem de Prisão Europeia é inválida, porque seu cliente não foi formalmente indiciado. Entretanto, a Agência contra Crimes Organizados Graves britânica, (SOCA, an sigla em inglês) afirma que não é necessária qualquer acusação - é suficiente que o individuo esteja "enfrentando um processo".

Processos

Em meio a estes processos legais, em outubro a Suécia rejeitou seu pedido de residência. Em seguida, Assange teria aventado a possibilidade de buscar refúgio na Suíça ou na Islândia. Apesar de ambos os países serem membros da Interpol, e de terem tratados de extradição com os EUA, isso não significa que sejam territórios hostis para Assange.

A Interpol emitiu nesta semana uma "notificação vermelha", informando todos os seus 188 membros de que ele é procurado pela Suécia. O documento não obriga qualquer dos países a entregar Assange, apesar de um porta-voz da Interpol ter dito à BBC que "geralmente os países se sentem compelidos a fazê-lo".

Da mesma forma, embora se espere que um país que tenha acordo de extradição com os EUA entregue Assange, é possível que isso não aconteça, se o crime em questão for considerado como de natureza política.

O Equador parecia ter se tornado, no começo da semana, um possível refúgio para o fundador do Wikileaks, quando o vice-chanceler Kintto Lucas disse que Assange seria bem-vindo e poderia pedir residência por lá. Mas o presidente Rafael Correa rapidamente descartou a ideia.

Outro destino possível poderia ser, em tese, a Austrália, já que Assange é australiano e tem passaporte australiano. No entanto, essa não parece ser uma boa escolha para ele. Assim como Islândia e Suíça, a Austrália também é membro da Interpol e tem tratado de extradição com os EUA. Além disso, o procurador-geral da Austrália, Robert McClelland, disse esta semana que a polícia estava investigando se a última rodada de vazamentos do Wikileaks havia violado as leis do país.

Complicações

Para piorar ainda mais a situação de Assange em seu país, um funcionário de alto escalão do governo australiano uma vez Assange, dizendo que já que ele agia "fora das regras", seria tratado como um fora da lei - ou pelo menos foi isso que ele disse ao New York Times.

Seja qual for o país para o qual Assange for em seguida, seu problema pode ser chegar a ele. Se ele estiver neste momento em um país membro da União Europeia, ele se arrisca a ser preso assim que apresentar seu passaporte na fronteira.

*Com AFP, EFE e BBC

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