A onda de violência que tomou conta do Líbano nos últimos seis dias também expôs a delicada situação do Exército do país, ameaçado de se fragmentar em linhas sectárias. Os confrontos entre milícias do grupo xiita Hezbollah (e seus aliados) e militantes pró-governo que se espalharam por Beirute e outros pontos do país já mataram 65 pessoas e deixaram outras 200 feridas.

O Exército libanês, com medo de que suas fileiras se desintegrassem por lealdades sectárias, se manteve neutro no conflito e se limitou a garantir a segurança de instituições e prédios governamentais.

"Passava o tempo todo lembrando meus subordinados da nossa missão, de que deveríamos continuar unidos", disse à BBC Brasil o tenente Omar, que não quis revelar seu sobrenome.

Tensão
O tenente, que é um muçulmano sunita, relatou os tensos dias que ele e seu comandados viveram quando começaram os combates nas ruas de Beirute, na semana passada.

Omar falou sobre a difícil tarefa de administrar o clima de tensão constante, já que sua unidade é formada por sunitas, xiitas e cristãos.

Segundo Omar, os soldados estavam nitidamente nervosos, alguns imaginando que era o início de uma guerra civil.

Sua unidade estava posicionada na Hamra, palco de uma das mais intensas batalhas entre o Hezbollah e militantes sunitas do líder governista Saad Hariri.

"Quando vimos o número de militantes do Hezbollah, e o equipamento que tinham, eu tive a certeza de que os militantes do al-Mustaqbal (partido de Hariri) estavam perdidos", disse.

Xiitas e sunitas
Em menos de 24 horas, as milícias da oposição derrotaram e humilharam os governistas, tomando toda a Beirute oeste.

O Exército, que tinha ordens para não tomar partido, passou por momentos difíceis quando os militantes se aproximaram dos prédios do governo.

Segundo Omar, um de seus soldados, que é xiita, se aproximou e disse que rezava para que o Hezbollah não resolvesse invadir as áreas governamentais.

"Ele me olhou nos olhos e disse: 'Por favor, tenente, me perdoe, mas eu não poderei abrirei fogo contra eles'", disse Omar.

Ao ser questionado sobre o que faria se houvesse uma guerra civil, Omar não soube dizer. "Como eu poderia ficar contra meus irmãos, sou sunita, não posso fugir disso."
Renúncia
O Líbano já enfrentou a fragmentação de seu Exército em linhas sectárias durante a sangrenta guerra civil entre 1975 e 1990, que deixou mais de 150 mil mortos e destruiu a infra-estrutura do país.

Naquela ocasião, o Exército libanês permaneceu em seus quartéis para não se envolver no conflito.

Mas a recusa de soldados de obedecer seus oficiais por lealdade a seus líderes religiosos culminou com a dissolução do Exército do país.

Nesta quarta-feira, o medo da desintegração do Exército voltou a aparecer com a notícia de que o chefe-assistente da Inteligência do Exército e outros 40 oficiais leais ao governo teriam apresentado sua renúncia ao comandante das Forças Armadas, Michel Suleiman, segundo informações da Agência de Notícias Nacionais.

Suleiman rejeitou as renúncias e enviou uma carta a todo o corpo de oficiais do Exército libanês, um ato inédito, já que é a primeira vez na história da intituição militar que um comandante se dirige diretamente aos oficiais.

Na carta, o general disse a seus comandados que nenhuma força regular pode conter o que o Líbano experimentou - uma guerra civil.

"O que aconteceu nas ruas do Líbano é uma guerra civil real que nenhum exército nacional no mundo pode confrontar. Tais exércitos se desintegraram", dizia a mensagem.

Suleiman salientou a necessidade do Exército não permitir a explosão de uma guerra civil.

Liga Árabe
Na manhã desta quarta-feira, uma delegação da Liga Árabe chegou a Beirute com a missão de tentar solucionar a crise política do país.

A Liga Árabe tenta pôr um fim aos protestos contra o governo liderados pelo Hezbollah e seus aliados, que levaram ao bloqueio das principais estradas no Líbano, inclusive a que leva ao aeroporto.

Nos últimos 16 meses, o Líbano tem enfrentado um impasse político entre a coalizão de governo e a oposição, liderada pelo Hezbollah, a respeito da composição do governo.

O país está sem presidente desde novembro de 2007, quando Emile Lahoud, que é pró-Síria, deixou o cargo ao fim de seu mandato. Desde então, as duas facções políticas não conseguem eleger seu sucessor.

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