Gaza, 23 jan (EFE).- A ofensiva militar israelense contra o Hamas em Gaza não cumpriu um de seus principais objetivos, de acabar com os túneis clandestinos que ligam a faixa ao Egito, muitos dos quais voltam a funcionar hoje.

"Quando acabaram os bombardeios, fui comprovar como estava meu túnel e encontrei a saída totalmente destruída" explica um morador de Rafah (sul de Gaza) de 45 anos que pediu não ser identificado.

"Mas quando achava que o haviam destruído, vi que uma mangueira sobrava entre os escombros. Então chamei meu sócio do lado egípcio, lhe pedi que tentasse bombear combustível e funcionou", acrescentou, satisfeito.

Este palestino passou os últimos três dias consertando os destroços ao redor da boca do túnel, sua única fonte de renda, que agora volta a funcionar em tempo integral.

Os túneis foram a principal via de escape dos habitantes de Gaza para aliviar o bloqueio que Israel impôs desde que a facção islamita Hamas tomou o poder da Autoridade Nacional Palestina (ANP) pelas armas, em junho de 2007.

Alimentos básicos, tabaco, álcool, combustível e bens de primeira necessidade entraram em Gaza neste último ano e meio através dos cerca de mil túneis que ligam casas da faixa com outras no Sinai egípcio.

Os túneis foram um bom negócio para o Hamas, que cobra altos impostos a seus proprietários e ainda serviram ao movimento islamita e a outras facções palestinas para contrabandear armamento para a faixa.

Através deles, segundo denuncia Israel, as milícias adquiriram foguetes Grad, de fabricação russa e com maior alcance que os Qassam de fabricação caseira e que se fabricam em Gaza, o que permitiu aos milicianos atacar cidades israelenses a mais de 40 quilômetros de distância, como Bersheva e Ashdod.

"Escavamos túneis porque não temos outra alternativa. O bloqueio de Israel a Gaza é muito duro e os túneis foram uma maneira inteligente de vencê-lo ", diz à Agência Efe Hashim Abu Jazzar, empregado de um túnel de 23 anos.

Segundo Jazzar, as bombas jogadas pelas tropas israelenses "eram tão fortes que penetravam a terra e provocavam tremores subterrâneos por vários segundos".

"Cada vez que uma bomba caía sentíamos que toda a terra tremia, como se houvesse um terremoto", conta Jazzar, acrescentando que "os militares não bombardearam só os túneis, mas também muitas casas na zona da fronteira".

Militares israelenses afirmam que 80% dos túneis foram destruídos, mas palestinos em Gaza sustentam que muitos que sobraram e já estão em funcionamento.

Segundo vários proprietários, cerca de metade dos túneis ao oeste de Salah ad-Din (na cidade de Rafah, em frente à fronteira com o Egito) e 10% dos que ficam ao leste permaneceram intactos.

Alguns começaram a funcionar logo que acabou a ofensiva de Israel, que no domingo passado declarou um cessar-fogo unilateral.

Os primeiros produtos que entraram, após três semanas sem receber bens, foram combustíveis, cigarros, refrescos, chocolate e aparelhos elétricos.

"Enquanto Israel mantiver o bloqueio na Faixa de Gaza não deixaremos de trabalhar nos túneis, mas se todos os postos de fronteira se abrirem permanentemente, o trabalho nos túneis vai parar imediatamente", afirma Abu Jabal, dono de um túnel.

Abu al Baraa, também dono de uma passagem, afirma que o seu ficou danificado e está sendo reparado, mas que seu irmão também tinha um túnel que foi completamente destruído.

"Escavaremos outro túnel seja qualquer que seja o custo. Enquanto continuar o bloqueio, seguiremos com isto", afirmou Al Baraa. EFE sar/jp

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