Odinga assume como primeiro-ministro e põe fim à crise no Quênia

Pedro González Lasuén Nairóbi, 17 abr (EFE).- O dirigente da oposição no Quênia, Raila Odinga, tomou posse hoje no cargo de primeiro-ministro do Governo de coalizão, em um ato histórico que encerra definitivamente a crise vivida pelo país há quatro meses por causa do resultado das últimas eleições.

EFE |

Odinga, líder do Movimento Democrático Laranja (ODM), tomou posse no palácio presidencial, em Nairóbi, por volta das 11h00 local (06h00 em Brasília), em uma cerimônia conduzida pelo presidente queniano, Mwai Kibaki, seu adversário político no pleito de dezembro.

Foram testemunhas de honra os representantes dos países vizinhos da África Oriental e o ex-secretário-geral da ONU e mediador do conflito, Kofi Annan, que chegou ontem a Nairóbi unicamente para a cerimônia.

"A formação do Governo de coalizão servirá para fechar a brecha política e étnica aberta pelas últimas eleições", afirmou Kibaki em discurso após o juramento de Odinga e dos novos ministros do Gabinete.

Os convidados de honra foram o presidente de Uganda, Yoweri Museveni, que chegou atrasado, e o primeiro-ministro de Ruanda, Makuza Bernard. Também assistiu à posse o antecessor de Kibaki por mais de duas décadas, Daniel arap Moi.

Um a um, os 40 ministros juraram por seus cargos sobre a Bíblia em inglês e suahili, as duas línguas oficiais do país.

Após Odinga, foi a vez de Uhuru Kenyatta, vice-primeiro-ministro, ministro do Comércio e filho de Jomo Kenyatta, pai da independência do Quênia, em 1963.

Antes de se tornar presidente, Jomo Kenyatta foi o primeiro chefe de Governo da história do Quênia, entre 1963 e 1964. Hoje, Odinga se tornou o segundo, já que o cargo não existiu nesse período.

O novo primeiro-ministro prometeu "trabalhar para o povo, resolver o problema dos desabrigados" e agradeceu "a confiança e responsabilidade depositada pelos quenianos".

O primeiro Governo de coalizão do Quênia é o mais numeroso da história do país. Além dos 40 membros do gabinete, contará com 52 adjuntos diretos.

O ambiente foi de cordialidade e bom humor. Tanto os ministros quanto Kibaki e o vice-presidente, Kalonzo Musyoka, trocaram brincadeiras.

Odinga marcou o dia ao confundir o presidente ugandense com o chefe de Estado da Tanzânia, Jakaya Kikwete. O mais sério, apesar de ter se mostrado satisfeito um dia antes, foi Annan.

O ex-secretário-geral da ONU afirmou, como ontem, que ainda há muito trabalho pela frente.

Annan reiterou a importância da cooperação entre as duas correntes políticas e pediu ajuda a Kibaki e a Odinga, "dispostos a trabalhar juntos, mas que precisam do apoio de todos".

O Governo é composto por 20 membros afins ao Partido de União Nacional (PNU), de Kibaki, por aliados do Movimento Democrático Laranja do Quênia (ODM-K), de Musyoka, e pela Coalizão Nacional Arco-Íris (Narc), de Uhuru Kenyatta.

Os outros 20 ministros, designados por Odinga, procedem do ODM.

O Governo enfrenta uma nova era posterior à pior crise da história do país, gerada por causa das eleições de 27 de dezembro.

A Comissão Eleitoral do Quênia deu a vitória a Kibaki apesar das denúncias de fraude da oposição. A comunidade internacional inclusive pôs em xeque a transparência do pleito.

Os primeiros incidentes violentos entre partidários do PNU e do ODM aconteceram em 30 de dezembro na capital queniana. Os enfrentamentos diminuíram também em conseqüência das intervenções policiais.

Nos dois meses seguintes, mais de 1.500 pessoas morreram no que se tornou um conflito étnico que deixou mais de 400 mil pessoas desabrigadas.

O ato de hoje foi fruto da mediação feita por Annan no Quênia e que terminou com um acordo político sem precedentes assinado por Kibaki e Odinga em 28 de fevereiro.

O novo Governo, cuja formação demorou várias semanas para ser concluída por conta de divergências entre os dois líderes políticos, foi recebido com certas críticas pela sociedade queniana por causa de seu tamanho excessivo.

"Mais uma vez, a classe política não escutou os quenianos", disse à Agência Efe o diretor da Associação de Direitos Humanos do Quênia, Maina Kiai.

Segundo Kiai, o Gabinete, que representará uma despesa anual de US$ 100 milhões, "esvaziará os cofres do Estado e afogará a classe baixa", à qual pertencem mais de 70% dos mais de 36 milhões de quenianos. EFE pgl/wr/fb

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