Ocidente mitificou figura de Bin Laden, diz especialista

Los Angeles (EUA.), 4 out (EFE) - O Ocidente mitificou a figura de Osama bin Laden, segundo um professor especialista nos discursos do terrorista mais procurado do mundo, que definiu o líder da Al Qaeda como alguém de intelecto criativo, que parece humilde e se expressa como um militante.

EFE |

Flagg Miller, especialista em islã que trabalha na universidade californiana UC Davis, chegou a esta conclusão após anos analisando dezenas de gravações de Bin Laden encontradas em uma operação militar em 2003 no Afeganistão, que faziam parte de uma coleção de quase 1.500 fitas cassetes de reflexões político-religiosas.

Em entrevista à Agência Efe, Miller levantou dúvidas sobre a imagem que se tem, no Ocidente, do próprio Bin Laden e da organização Al Qaeda, "engrandecida" perante os olhos dos cidadãos pelos veículos de comunicação e os Governos ocidentais.

"Imaginamos (a Al Qaeda) como uma rede bem organizada de gente através de todo o mundo na qual manda Bin Laden, mas esta idéia geral não se percebe nessas fitas. O termo Al Qaeda em árabe significa regra, base, e pode se referir a muitas coisas, incluindo sua conotação militar", disse.

Nas gravações foram captadas divergências entre Bin Laden e seus companheiros sobre como interpretam alguns conceitos, e este grupo foi retratado em situações um pouco diferentes, como durante uma viagem ou cozinhando, que os mostra como heterogêneos e pouco sofisticados.

No entanto, Miller acusa as autoridades americanas de querer "simplificar o inimigo perante o público e Bin Laden é o centro disso. Algo que os terroristas utilizam para seu benefício".

"É uma ameaça que deve ser levada a sério, mas devemos enfocá-la de uma maneira mais complexa", disse Miller, para quem os terroristas empregam agora o conceito que o Ocidente elaborou sobre eles.

Este professor, que no número de outubro da revista "Language & Communication" publicou uma análise semântica intitulada "Al Qaeda as a 'pragmatic base': Contributions of area studies to sociolinguistics", criticou também a literatura existente sobre a organização, a qual também não ajuda a compreender o problema.

"Fico surpreso com os livros que saem de Bin Laden e Al Qaeda nos quais se escolhem trechos soltos de discursos que servem para formar nossa perspectiva de rede global terrorista. Há outras idéias que não chegam ao povo e que facilitariam a compreensão do que se passa", disse.

Após horas escutando Bin Laden, Miller concluiu que se trata de uma pessoa "intelectualmente criativa, que fala com paixão do islã e de como foi prejudicado pelo Ocidente e pelos líderes árabes. Ele se dirige a seu ouvinte em árabe padrão, de forma humilde, não como um político ou um religioso, mas como um militante".

O acadêmico, que trabalha atualmente em um projeto para analisar a legitimidade dos discursos do líder terrorista e o realismo de suas ameaças, não hesitou na hora de qualificar de falsa a ligação entre os atentados de 11 de setembro de 2001, Saddam Hussein e Bin Laden.

"Não há provas disso. Além disso, os ataques da Al Qaeda no Iraque representam 5% de todos os sofridos pelas tropas dos Estados Unidos. Há muitas outras organizações envolvidas", afirmou Miller, que morou quatro anos no Oriente Médio.

O especialista assegurou ser favorável a qualquer ação que promova o diálogo intercultural.

As fitas analisadas por Miller, que ficou conhecido na emissora de televisão "CNN" após a descoberta, se encontram na Universidade de Yale, onde serão digitalizadas para serem conservadas e estudadas novamente. EFE fmx/db

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