Segundo missão europeia, apuração teve falha em um terço das seções eleitorais; manifestantes vão às ruas contestar resultado

Uma organização internacional denunciou nesta segunda-feira “problemas sérios” na eleição presidencial da Rússia , realizada no domingo e vencida pelo primeiro-ministro Vladimir Putin . De acordo com a Organização de Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), a votação foi “claramente enviesada” a favor do premiê.

“Não houve competição e os abusos de recursos do governo fez com que nunca houvesse dúvida sobre quem ia vencer”, afirmou Tonino Picula, chefe da missão observadora da OSCE, formada por 250 pessoas e fruto de uma parceria com o Conselho Europeu.

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Em Moscou, homem tira foto de tela de televisão que mostra vitória de Putin na eleição presidencial
AP
Em Moscou, homem tira foto de tela de televisão que mostra vitória de Putin na eleição presidencial

Em um comunicado que resume brevemente as observações da missão, Picula disse que “o processo eleitoral se deteriorou no momento da apuração e evoluiu de forma negativa em pelo menos um terço das seções eleitorais”. Ele não mencionou denúncias feitas anteriormente por observadores independentes russos, como a de que alguns eleitores votaram mais de uma vez.

A Comissão Eleitoral Central (CEC) disse que Putin obteve mais de 63% dos votos, mas os observadores independentes russos, reunidos num grupo chamado Golos, afirmaram que o premiê ficou perto da marca de 50% dos votos – necessária para conseguir a vitória no primeiro turno.

Milhares de pessoas saíram às ruas da capital Moscou nesta segunda-feira para protestar contra o processo eleitoral. Os opositores de Putin gritavam frases e palavras de ordem como: "Vergonha!" e "Rússia sem Putin!". A concentração ocorreu na Praça Pushkin, um dos locais mais icônicos da cidade, e cerca de 12 mil policiais e soldados foram escalados para cuidar da segurança, de acordo com a imprensa do país.

"Nós teremos uma nova eleição", disse Yevgeny Natarov, morador de Moscou de 39 anos que se juntou à manifestação opositora.

Sergei Udaltsov, um dos organizadores do protesto, pediu aos manifestantes que permanecessem na praça até que Putin recusasse o resultado. "Se foi um eleição livre, por que eles têm de encher a cidade com tantos soldados?", perguntou Udaltsov à multidão. "Eles nos temem!". 

A polícia russa deteve um suspeito de planejar um ataque a bomba durante manifestações em Moscou na segunda-feira e na terça-feira. Autoridades alertaram os manifestantes de que eles enfrentariam acusações criminais por causa dos protestos. Forças de segurança detiveram o líder do banido Partido Bolvechique, Eduard Limonov, e outros partidários, que iniciavam um protesto perto da agência de segurança e inteligência russa (FSB, na sigla em russo).

Em São Petersburgo, a segunda maior cidade do país, cerca de 100 manifestantes foram presos. Eles faziam parte de um protesto sem autorização, do qual participavam 2 mil pessoas.


Medida

Em uma medida que parece ter o objetivo de acalmar a oposição, Medvedev ordenou nesta segunda-feira que o Ministério da Justiça apresente uma explicação sobre o motivo de ter rejeitado, no ano passado, o registro do Partido para a Liberdade das Pessoas, uma organização liderada por algumas dos mais proeminentes opositores do governo.

Medvedev também ordenou que o procurador-geral russo revise a legalidade da condenação do ex-magnata do petróleo Mikhail Khodorkovsky e mais de 30 outros presos que, segundo a oposição, foram condenados por questões políticas.

A eleição de domingo marcou um dos piores resultados eleitorais de Putin em Moscou. Com 86% dos votos apurados, ele tinha 47,22% dos votos, muito menos que os 70,28% obtidos pelo atual presidente, Dmitri Medvedev, na eleição de 2008.

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O chefe de campanha de Putin, Stanislav Govorujin, disse que "os acomodados de Moscou" votam em Mikhail Prokhorov, o bilionário que se apresentou como defensor da classe média. Prokhorov ficou em segundo lugar em Moscou, com 20,21% dos votos, seguido muito de perto pelo líder dos comunistas, Gennady Ziuganov.

As republicadas do Cáucaso Norte, porém, apoiaram em peso a candidatura de Putin, que teve mais de 99% dos votos, segundo dados oficiais. "O povo checheno vive uma das páginas mais brilhantes de sua história. Por isso, considero lógico e justo que a absoluta maioria dos eleitores da república tenha votado em Vladimir Putin", disse o líder da Chechênia, Ramzan Kadyrov.

A votação ocorreu em meio a uma forte onda de protestos , indignação popular e ceticismo, provocada por acusações de que teriam ocorrido fraudes generalizadas a favor do partido de Putin, Rússia Unida, nas eleições parlamentares de dezembro.

A fim de aplacar os críticos, Putin anunciou a instalação de webcams nos 90 mil postos eleitorais do país, mas muitos na Rússia e entre a comunidade internacional questionam a eficácia da iniciativa. Em um relatório, a OSCE afirmou que ''câmeras não podem capturar todos os detalhes do processo de votação, em especial a contagem de votos''.

Com AP, AFP e EFE

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