Obra de teatro na Síria se atreve a satirizar a corrupção e os políticos

Damasco, 30 abr (EFE).- Uma comédia de teatro que se atreve a satirizar a corrupção e a classe política da Síria e de outros países árabes conseguiu se manter quatro meses em cartaz, com todos os ingressos vendidos.

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Damasco, 30 abr (EFE).- Uma comédia de teatro que se atreve a satirizar a corrupção e a classe política da Síria e de outros países árabes conseguiu se manter quatro meses em cartaz, com todos os ingressos vendidos. Os 5 milhões de habitantes de Damasco não estão muito acostumados à maneira como os assuntos internos do país são abordados em "Academia Corrupção", representada em um teatro do centro da capital síria. Após mais de 20 anos sobre os palcos, esta não é a primeira sátira do ator e diretor Human Houtt, de 51 anos, mas sem dúvidas é a mais atrevida. A cortina se levanta e uma dúzia de recém graduados da "universidade da corrupção" fazem piadas que antes eram contadas apenas em voz baixa e poderiam até ser motivo para prisão no país. "Meus respeitos, ladrão! Meus respeitos, o senhor diretor, governador, ministro! Meu respeito àqueles cujas mãos estão manchadas e cujo espírito não é honesto", diz o apresentador. "O suborno não é nenhuma vergonha. Quem não aceita um suborno é um idiota. É o momento das pessoas inteligentes", acrescenta. Em outra cena, os atores, alguns profissionais e outros estudantes da Universidade de Alepo, lembram da queda de um edifício em um bairro pobre da capital, em que 47 pessoas morreram. Um dos desabrigados fala a um repórter de televisão e começa a se queixar da corrupção, que causou construções de má qualidade. Nesse momento, um espião do Governo, ou "mukhabarat", se coloca a seu lado e o homem muda seu discurso automaticamente. "Aproveito a ocasião desse desmoronamento para agradecer o trabalho de todos os trabalhadores que aqui estão", afirma, elogiando exageradamente a atuação do Governo. Conforme Hout explica à agência Efe, não houve muitas dificuldades para que a obra superasse a censura. Ele disse que quis ser bastante explícito para "enviar uma mensagem bem clara". "A corrupção é uma praga que todos devemos combater. Todos somos responsáveis e devemos dizer claramente que é preciso encontrar soluções para esse fenômeno tão destrutivo", coloca. "É uma comédia e o povo pode aproveitá-la. Muitos funcionários do Governo vieram e riram, porque me dedico a criticar o suborno de Moçambique e não o daqui", explica, dando uma das chaves da obra. "Academia Corrupção", que dura três horas e meia, desperta gargalhadas através de aspectos mais cotidianos da vida dos sírios, como o fato de como os "mukhabarat" podem ser vistos em todas as partes, tanto que até sabem o que as pessoas comem em suas casas. "Este é um país onde há democracia e cada cidadão merece falar com liberdade", diz um oficial de inteligência, enfeitado com um bigode de Hitler. Alguns críticos só veem espetáculos como uma válvula de escape para que os sírios se esqueçam por um tempo de suas frustrações e da impotência que sentem diante da corrupção e da falta de reformas. Poucos funcionários acabam na prisão por corrupção e, apesar de o diretor do serviço alfandegário ter sido detido por fraude há pouco tempo, a luta contra os corruptos é lenta na Síria. O autor do roteiro, o cirurgião Abduljawad al Abed, afirma que sua obra não é política, mas quer apenas expressar "que algumas coisas não vão bem no país". "A obra nasce justamente do meu amor pelo país", comenta. A prova desse amor está na última cena, protagonizada pelo próprio Houtt, cujo personagem percorre o palco com passo firme, levando a bandeira do país, entre as palmas do público, que fica de pé. EFE gb/dr/fm

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