Líder dos EUA não abordou assunto com presidente russo; para Casa Branca, caso não prejudica relação entre os dois países

O presidente americano, Barack Obama, sabia da operação do FBI para prender supostos espiões russos antes de se encontrar com o presidente russo, Dmitri Medvedev, na semana passada, mas não abordou o tema nas conversas, segundo o porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs.

No entanto, a Casa Branca informou que as revelações, que foram mal recebidas pela Rússia , não  interferirão nos esforços de ambos os lados para retomar as relações, que melhoraram desde que Obama assumiu o governo dos EUA no ano passado. "Não acredito que isso afetará a retomada de nossas relações com a Rússia", disse Gibbs. "Fizemos grandes progressos no último ano e meio."

A operação foi lançada alguns dias depois de uma calorosa reunião entre Obama e Medvedev, na qual ambos se esforçaram para enterrar quaisquer tensões dos tempos da Guerra Fria. Os dois celebraram a nova fase das relações em um encontro em Washington, onde comeram hambúrguer em uma lanchonete e propuseram trocar o telefone vermelho da Guerra Fria pelo Twitter .

Os governantes usaram uma mesa de dois lugares ao lado dos tradutores e dividiram uma porção de batatas fritas
© AP
Os governantes usaram uma mesa de dois lugares ao lado dos tradutores e dividiram uma porção de batatas fritas
O Departamento de Estado, por enquanto, informou que os 11 supostos agentes russos presos nesta semana são "vestígios" do passado da Guerra Fria, dizendo que as relações entre os dois países continuam melhorando. "Estamos nos movendo rumo a uma relação de maior confiança. A Guerra Fria já se foi, nossas relações demonstram isso", disse Phil Gordon, secretário de Estado adjunto americano para assuntos europeus. 

Horas antes, o primeiro-ministro russo, Vladimir Putin , disse ao ex-presidente dos EUA Bill Clinton, de visita a Moscou, esperar que o episódio relacionado à suposta rede de espionagem não prejudique as relações entre os dois países. "Esperamos que as pessoas que apreciam as relações entre os dois países entendam isso", disse o premiê, segundo a agência "Interfax". Putin disse que as relações entre Moscou e Washington se desenvolvem "muito bem", principalmente no âmbito econômico, apesar da crise financeira global.

O tom ameno das declarações de Putin contrastaram com o das declarações depois pela diplomacia russa, que negou que os supostos espiões tenham agido contra interesses americanos.

Volta à Guerra Fria

No comunicado, a chancelaria russa também pediu explicações sobre o episódio. "Em nossa opinião, tais ações não têm qualquer fundamento e são mal intencionadas", disse a diplomacia russa. "Não entendemos as causas que levaram o Ministério da Justiça americano a fazer declarações públicas no espírito de 'histórias de espiões' do tempo da Guerra Fria", afirmou o ministério.

O chefe da diplomacia russa, Serguei Lavrov, pediu explicações e ironizou o anúncio das prisões que aconteceram poucos dias depois da visita de Medvedev. "O momento do ocorrido foi escolhido com especial delicadeza", disse.

Cinco das dez pessoas detidas no domingo, nos Estados Unidos, compareceram na segunda-feira perante um juiz federal em Nova York, que ordenou que continuassem em prisão preventiva. Um dos acusados foi preso nesta terça-feira no Chipre.

O canadense Robert Christopher Metsos, de 54 anos, foi capturado no aeroporto de Larnaca (sul) quando se dispunha a embarcar pela manhã num voo em direção a Budapeste. Há informações de que Metsos pagou uma fiança de 26,5 mil euros (US$ 32 mil) para aguardar, em liberdade, o processo.

Os demais detidos dizem ser de nacionalidade americana, canadense e peruana, segundo as duas queixas apresentadas contra eles pela Justiça americana, mas a informação não foi confirmada. 

Todos foram acusados de atuar como agentes de um governo estrangeiro, o que envolve uma pena máxima de cinco anos de prisão. Além disso, nove estão sendo incriminados por participação em um esquema de lavagem de dinheiro, cada um podendo pegar uma pena máxima de 20 anos de cadeia.

A Grã-Bretanha e a Irlanda informaram nesta terça-feira que investigam informações sobre uma possível utilização de passaportes britânicos e irlandeses falsos por alguns dos suspeitos do caso.

O Serviço Russo de Inteligência Externa (SVR), primeiro na lista dos acusados das autoridades americanas, não quis fazer comentários. Segundo a Justiça americana, os suspeitos foram formados pela SVR para "obter informações", "infiltrando-se nos círculos políticos americanos". O desmantelamento da rede é o resultado de dez anos de investigação do FBI.

Os investigadores descobriram um arsenal de meios de comunicação, como uma técnica de codificação de dados em fotografias publicadas em páginas da web de pouca visibilidade e ainda rádios de ondas curtas para entrar em contato diretamente com Moscou.

O caso reúne todos os elementos de um romance de espionagem: mensagens codificadas, dinheiro em espécie entregue por emissários russos durante estadas em países latino-americanos, idas e vindas a Moscou através de Roma, passaportes falsos, transporte e entrega de computadores portáteis.

A SVR é sucessora da KGB , Serviço de Inteligência da União Soviética, onde trabalhou o premiê Putin. Desde a dissolução da URSS, a contra-espionagem e a inteligência interna são da responsabilidade do Serviço Federal de Segurança (FSB), dirigido por Putin de 1998 a 1999.

*Com EFE e AFP

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