Obama reinventa a política americana

Barack Obama rompeu as barreiras raciais, lógicas e probabilísticas em sua caminhada rumo à Presidência, reelaborando o mapa eleitoral e mudando a maneira de se encarar a política nos Estados Unidos.

AFP |

Determinou na quarta-feira regras estritas de transparência à administração americana, que será isolada dos influentes grupos de pressão de Washington, ao mesmo tempo em que anunciou o congelamento dos salários de seus principais funcionários na Casa Branca. Segundo o governo, o teto salarial será de 100.000 dólares por ano.

"Houve segredos demais nesta cidade durante muito tempo", afirmou Obama, que fez campanha com o tema da "mudança em Washington".

"As regras antigas diziam que se existissem argumentos defensáveis para não revelar alguma coisa aos americanos, esta coisa não seria revelada. Esta era acabou", sentenciou, no dia seguinte à retirada da administração Bush, muito criticada por ter mantido em segredo informações que deveriam ter sido levadas a público.

"Eu mesmo, como presidente, me conformarei às novas normas de transparência", garantiu o presidente dos Estados Unidos, que assinou cinco decretos sobre o funcionamento de sua administração.

Na quinta-feira, o presidente dos Estados Unidos assinou um decreto que ordena o fechamento do centro de detenção de Guantánamo num prazo de um ano, marcando a ruptura com a política controversa de luta contra o terrorismo de George W. Bush.

O presidente também assinou um outro decreto impondo aos Estados Unidos à conformação às convenções de Genebra e ao manual do exército americano no tratamento dos prisioneiros.

Com esses decretos "a mensagem que enviamos ao mundo, é a de que os Estados Unidos têm a intenção de prosseguir o combate, comprometidos, no entanto contra a violência e o terrorismo, o que faremos com vigilância, com eficácia, dentro do respeito a nossos valores e ideais", disse.

O pedido de Barack Obama para que fossem suspensos os julgamentos de Guantánamo, gerou aprovação unânime da comunidade internacional e aumentou a esperança de que a polêmica prisão seja fechada o mais rápido possível, como anunciou o novo presidente durante a campanha eleitoral.

O relator especial da ONU sobre a tortura, Manfred Nowak, disse que o gesto de Obama foi "muito positivo".

"Parto do princípio de que (esses tribunais militares) serão suprimidos, e os envolvidos serão levados rapidamente para os Estados Unidos para comparecer perante autênticos tribunais civis, onde gozarão de todos os seus direitos", indicou o relator austríaco, que em várias ocasiões denunciou as condições dos prisioneiros em Guantánamo.

O comissário europeu de Justiça, Jacques Barrot, definiu a decisão como "um símbolo muito forte", estimendo que finalmente o país virava a página de um "triste episódio".

"Guantánamo não deveria ter existido jamais, e espero que seu fechamento aconteça rapidamente", declarou o chefe do governo espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero.

A Anistia Internacional (AI), por sua vez, elogiou o gesto como "um passo no bom caminho" - que, segundo um comunicado da organização divulgado em Londres, "deve ser consolidado com o abandono permanente destes processos injustos".

"Nos alegramos com o anúncio" de Obama, afirmou Homayun Hamidzada, porta-voz de Hamid Karzai, presidente do Afeganistão, país onde foram capturados centenas dos detidos que passaram por Guantánamo.

O principal partido islamita do vizinho Paquistão disse que a decisão foi "boa", enquanto, na Indonésia, cerca de 20 militares pró-direitos humanos se manifestaram a favor de seu fechamento imediato.

Já Portugal se declarou disposto a acolher presos de Guantánamo; na quarta-feira, a Suíça indicou que estudará a possibilidade de fazer o mesmo e a França também se inclina para aceitar os detidos, mas estudando "caso por caso".

Esse político negro de 47 anos, senador pelo Illinois, se apresentou há dois anos para mudar o que considerava a estreita política americana, o excessivo partidarismo e a deliberada divisão que caracterizaram os dois últimos períodos presidenciais.

Muitos analistas pensaram que Obama cometia um erro ao se lançar como candidato.

No entanto, o líder negro estava vendo algo que muito poucos viam: que os Estados Unidos estavam preparados para uma mudança radical de liderança.

Obama adotou o lema "Mudança", que se alinhou perfeitamente a um momento político.

"Reinventou a forma de se fazer política estabelecida desde pelo menos 1972", disse o analista Paul Levinson, da universidade nova-iorquina Fordham.

"Esta é uma revolução tão profunda como a eleição de Franklin D. Roosevelt em 1932 e John F. Kennedy em 1960", afirmou.

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