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Presidente dos EUA pede rápido esclarecimento de episódio; em Toronto, líder de Israel diz que ação foi legítima defesa

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, disse nesta segunda-feira ao primeiro-ministro israelense, Benyamin Netanyahu, que é importante descobrir o mais rápido possível todos os fatos relativos ao violento ataque israelense a uma frota humanitária com ajuda à Faixa de Gaza, disse a Casa Branca.

Pelo menos nove ativistas pró-palestinos foram mortos no ataque. A brasileira Iara Lee estava em um das embarcações que integravam a frota de ajuda humanitária a Gaza atacada por Israel nesta segunda-feira, segundo informou o Itamaraty. Ainda não está claro se ela está entre os mortos.

Manifestantes protestam em Amã, capital da Jordânia, contra acordo de paz com Israel
AP
Manifestantes protestam em Amã, capital da Jordânia, contra acordo de paz com Israel

Em telefonema a Netanyahu, Obama afirmou entender a decisão do premiê israelense de cancelar o encontro agendado para terça-feira para retornar a Israel . Ambos concordaram em reagendar o encontro "na primeira oportunidade", disse a Casa Branca. Netanyahu estava no Canadá desde sexta-feira para conversar com os líderes do país e se reuniria com Obama em Washington. Em Toronto, Netanyahu lamentou as vítimas, mas justificou a ação dizendo que os soldados agiram "para protegerem suas vidas".

"O presidente expressou profundo pesar pela perda de vidas no incidente de hoje, e preocupação com os feridos", disse. "O presidente também expressou a importância de descobrir todos os fatos e circunstâncias ao redor dos eventos trágicos desta manhã o mais rápido possível."

Antes, o porta-voz da Casa Branca, William Burton, disse que os Estados Unidos lamentavam profundamente as mortes e os feridos deixados pelo ataque, indicando que analisavam as circunstâncias em que foi realizado.

Dizendo-se "preocupada" com a ação, a Casa Branca não condenou o ataque, que qualificou de "incidente" e "tragédia". "Os Estados Unidos lamentam profundamente a perda das vidas e as lesões causadas, e está atualmente trabalhando para compreender as circunstâncias da tragédia", disse o porta-voz da Casa Branca, William Burton.

Enquanto o presidente palestino qualificou o ataque de "massacre" e decretou três dias de luto. Israel justificou a ação responsabilizando a "Frota da Liberdade", assegurando que seus tripulantes "atacaram os soldados israelenses", segundo o Ministério de Exteriores.

De acordo com a rede de televisão "NBC", havia 11 americanos na "Frota da Liberdade", entre eles um ex-embaixador e um antigo funcionário do Departamento de Estado.

Imagens de uma TV turca feitas a bordo do barco que liderava a frota mostram soldados israelenses lutando para controlar os passageiros. As imagens mostram algumas pessoas, aparentemente feridas, deitadas no chão. O som de tiros pode ser ouvido.

A ação de Israel põe o Governo do presidente dos EUA, Barack Obama, em uma situação complicada, pois coloca em perigo as negociações indiretas entre israelenses e palestinos, que começaram recentemente sob a mediação do enviado especial americano, George Mitchell.

A frota de seis navios atacada transportava mais de 750 pessoas que levavam ajuda humanitária à Faixa de Gaza, que está sob bloqueio de Israel desde que o grupo islâmico Hamas assumiu o controle desse território palestino em 2007. A ação causou comoção e indignação na comunidade internacional.

Condenação internacional

O ataque de comandos israelenses contra a frota internacional foi alvo de críticas de toda a comunidade internacional .

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, declarou estar chocado com o sangrento ataque israelense e pediu ao Estado hebreu que realize uma investigação a fundo sobre o fato. "Estou chocado pelas informações de que há mortos e feridos nos barcos que levavam ajuda a Gaza", declarou em Campala, capital de Uganda, onde assiste à abertura de uma conferência sobre a Corte Penal Internacional. "Condeno essas violências. É vital que se realize uma investigação completa", enfatizou.

O presidente francês, Nicolas Sarkozy, censurou o uso desproporcional da força contra a frota humanitária em Gaza e exigiu que a tragédia seja esclarecida. "Toda a luz deve ser lançada sobre as circunstâncias dessa tragédia, que enfatiza a urgência de reativar o processo de paz israelense-palestino", afirmou o chefe de Estado francês. O ministério das Relações Exteriores convocou o embaixador de Israel em Paris, Daniel Shek, para pedir explicações sobre o ocorrido.

Em Londres, o ministro das Relações Exteriores, William Hague, pediu ao Estado hebreu que ponha fim às "inaceitáveis e contraproducentes restrições impostas às ajudas encaminhadas ao território palestino". "Há uma clara necessidade de que Israel atue com moderação e de acordo com as normas internacionais", declarou.

Já a Alemanha - país que raramente critica Israel - comentou que a letal intervenção israelense contra um comboio pró-palestino é, "à primeira vista, de caráter desproporcional", segundo o porta-voz do governo, Ulrich Wilhelm. "Os governos da Alemanha sempre reconheceram o direito de defesa de Israel, mas esse direito deve acontecer dentro de uma resposta proporcional", disse Wilhelm.

Reação no mundo islâmico

O Egito, que em 1979 se tornou o primeiro país árabe a assinar um tratado de paz com Israel, convocou o embaixador israelense depois do ataque. "O Egito convoca o embaixador de Israel no Cairo depois dos eventos do 'comboio da liberdade'", disse a TV Nilo em breve manchete sem fornecer maiores detalhes.

A Turquia, por sua vez, também chamou para consultas seu embaixador em Israel e anunciou ter ordenado que os preparativos para as manobras militares conjuntas com Israel fossem anulados.

Após pedido do governo turco, que é membro temporário do Conselho de Segurança da ONU, o órgão anunciou que se reunirá na tarde desta segunda-feira em uma sessão de emergência para discutir o ataque de Israel contra os navios. Diplomatas disseram à Reuters que o horário da reunião ainda não foi agendado, e não deram maiores detalhes.

Por fim, o inimigo declarado de Israel, o presidente do Irã, Mahmud Ahmadinejad, denunciou o ataque do Exército israelense como "um ato desumano do regime sionista", informou a agência oficial Irna. "O ato desumano do regime sionista contra o povo palestino e o fato de impedir que a ajuda humanitária destinada à população chegasse a Gaza não é um sinal de força, e sim de fragilidade desse regime", declarou. "Tudo isto mostra que o fim desse sinistro regime fantoche está mais perto do que nunca."

O ministro de Defesa iraniano fez um apelo aos países do mundo para que cortem todas as relações com Israel após a morte dos ativistas. "O mínimo que a comunidade internacional deveria fazer com relação ao horrível crime cometido pelo regime sionista é boicotá-lo totalmente e cortar todas as relações diplomáticas, econômicas e políticas com o regime sionista", disse Ahmad Vahidi, segundo a agência semi-oficial de notícias ILNA.

*Com Reuters, EFE, AFP e BBC

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