Obama não mudará relação com América Latina, dizem analistas

A chegada de Barack Obama à Casa Branca, a partir desta terça-feira, não deve gerar grandes mudanças para a América Latina, na opinião de analistas ouvidos pela BBC Brasil. A expectativa [em cima da nova presidência] é muito alta, mas não vejo grandes mudanças na política exterior dos Estados Unidos em relação à nossa região, diz o cientista político chileno Ricardo Israel, da Universidade Autônoma do Chile.

BBC Brasil |

"A América Latina não apareceu na campanha eleitoral. Obama tinha prometido tirar os soldados americanos do Iraque, mas nomeou Robert Gates para ser seu secretário de Defesa."
Gates já tinha sido da administração de George W. Bush, o que sinalizaria, para o analista, que Obama poderá fazer uma política de defesa de continuidade nesta área. Na opinião dele, em relação à América Latina os assuntos para o governo americano serão os mesmos de Bush: imigração ilegal e o tráfico de drogas.

Segundo o analista chileno, também existem poucas chances de mudança em relação ao governo de Obama e os principais adversários americanos na região - o presidente Hugo Chávez, da Venezuela, e o ex-presidente cubano, Fidel Castro.

"Enquanto Fidel estiver vivo, nada mudará de peso na relação entre Estados Unidos e Cuba".

Ele acredita que o embargo econômico a Cuba não será retirado, apesar da expectativa de muitos de uma mudança de postura com Obama no poder.

'Guerra fria'
A decisão do novo presidente americano de manter Tom Shannon, pelo menos nas próximas semanas, como secretário adjunto de Estado para Assuntos do Hemisfério Ocidental, cargo que ocupa desde 2005, também levou analistas de diferentes países da América Latina a afirmarem que a política dos Estados Unidos para a região poderá ser mantida.

O professor de relações internacionais da Universidade San Andrés, de Buenos Aires, Juan Gabriel Tokatlian, entende que o principal desafio de Obama na América Latina será "acabar com a guerra fria" na região.

"O único lugar onde persiste a guerra fria no mundo é a América Latina".

Segundo ele, existem três casos que confirmam essa tese: "primeiro, Cuba que com os anos deixou de ser um modelo de exportação comunista e tem hoje traços de típico nacionalismo popular e autoritário; depois a Colômbia, onde existe o mais antigo grupo guerrilheiro do mundo, as Farc, que apesar das últimas baixas de guerrilheiros, ainda resiste; terceiro a Venezuela, onde está Chávez, com uma mistura de aversão ao imperialismo e populismo caribenho".

Para Tokatlian, o democrata Obama poderia iniciar o fim do embargo a Cuba e começar a "desmontar" o que chamou de "guerra fria" na América Latina.

Para ele, se Obama tomar esta e outras iniciativas vai contribuir para melhorar a imagem dos Estados Unidos na América Latina - após o que chama de "estragos de confiança" da era Bush.

Mas talvez, como disse o economista Fausto Spotorno, da consultoria Ferreres e Associados, de Buenos Aires, a atenção de Obama estará concentrada, principalmente, em superar a recessão nos Estados Unidos.

"Essa vai ser sua prioridade. E por ser democrata e por estarmos em tempos de crise e perdas de empregos nos Estados Unidos, dificilmente ele vai liderar uma maior abertura econômica para a América Latina no território americano", afirmou.

"A América Latina não existiu na gestão Bush e pelo jeito vai continuar assim, apesar das expectativas em relação à Obama", disse Spotorno.

Argentina
Em outubro do ano passado, o assessor econômico de Obama, Larry Summers, que foi da equipe do ex-presidente Bill Clinton, esteve em Buenos Aires e se reuniu com analistas políticos e econômicos locais.

Eles conversaram sobre a situação na região, como confirmaram à BBC Brasil assessores do economista Orlando Ferreres, que esteve no encontro.

Summers mostrou preocupação com a economia argentina, por sua trajetória de "não cumprir" com os pagamentos e pela situação do Indec (Instituto Nacional de Estatísticas e Censos), apontado como autor de estatísticas maquiadas devido à interferência oficial.

A Argentina decretou a moratória de sua dívida em 2001, pagou parte dela em 2005, mas não negociou com os que não aceitaram sua oferta e, por isso, para especialistas continua tecnicamente em moratória.

Ao mesmo tempo, outros analistas entendem que hoje a América Latina - especialmente a América do Sul - é vista de forma dividida por outros governos, incluindo Estados Unidos.

De um lado, Brasil, Chile, Uruguai e Colômbia, com uma postura diferente, como observou Tokatlian, da que hoje é defendida por Venezuela, Bolívia e Equador - mais avessa à política americana.

"Mas enquanto a Venezuela continuar mandando petróleo para os Estados Unidos, essa disputa fica apenas no discurso, na retórica", disse Ricardo Israel.

Na semana passada, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sugeriu, em um discurso na Bolívia, que os presidentes Hugo Chávez, da Venezuela, e Evo Morales, da Bolívia, não esperem por um telefonema de Obama, e tomem eles próprios a iniciativa através de seus embaixadores.

O problema, no momento, é que tanto Chávez quanto Morales não têm relações diplomáticas com Estados Unidos.

Recentemente, eles expulsaram os embaixadores americanos de seus territórios. Recompor essa relação será um desafio para eles, já que, no caso de Morales, o rompimento afetou a exportação de produtos de seu país para o mercado americano, como destacou a analista Jimena Costa, da Universidade de San Andrés, de La Paz.

    Leia tudo sobre: iG

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG