Por John Whitesides WASHINGTON (Reuters) - Barack Obama aproveitou-se de uma onda de insatisfação dos eleitores norte-americanos para fazer história e conquistar a Casa Branca, na terça-feira, tornando-se o primeiro presidente negro dos EUA. O democrata prometeu mudanças, ainda que pressionado por uma profunda crise econômica e por duas guerras.

Obama também levou o Partido Democrata a uma vitória folgada nas eleições legislativas, fazendo com que a legenda consolidasse sua maioria nas duas casas do Congresso, numa clara demonstração de rejeição do povo aos oito anos de liderança do presidente George W. Bush.

O novo líder dos EUA é filho de pai negro do Quênia e de mãe branca do Kansas. E a vitória dele sobre o republicano John McCain marca um momento ímpar na história do país -- ocorre 45 anos depois do auge do movimento de defesa dos direitos civis comandado por Martin Luther King.

"Ela já estava vindo havia muito tempo, mas nesta noite, por tudo o que fizemos hoje, neste momento definidor, a mudança chegou à América", disse Obama a 125 mil eufóricos simpatizantes reunidos na festa da vitória no Grant Park, em Chicago.

Obama nasceu em um momento no qual os negros dos EUA ainda lutavam contra as políticas segregacionistas do sul, e a dramática ascensão dele pode ajudar o país a enterrar sua longa história de tensão racial. Eufóricas celebrações de rua eclodiram por todo o país.

O novo presidente conquistou ao menos 349 votos no Colégio Eleitoral, uma cifra muito maior do que a de 270 de que necessitava. Conhecidos os resultados em mais de três quartos dos distritos eleitorais norte-americanos, o democrata vencia o republicano com 52 por cento (contra 47 por cento) dos votos da população.

O senador em primeiro mandato por Illinois tomará posse como 44o presidente dos EUA em 20 de janeiro de 2009, tendo pela frente enormes desafios, como a crise econômica, a guerra do Iraque e a reforma do sistema público de saúde. Seu vice será o senador Joe Biden, especialista em política externa.

"O caminho à frente será longo. Nossa escalada será árdua. Podemos não chegar lá em um ano ou em um mandato, mas, América, nunca estive mais esperançoso do que nesta noite de que chegaremos lá," afirmou Obama.

As esperanças de McCain de obter uma vitória inesperada evaporaram-se com sua derrota em Estados considerados decisivos, entre os quais Ohio e a Flórida, os mesmos Estados que determinaram a derrota dos democratas nas duas últimas eleições presidenciais.

O republicano, de 72 anos, senador eleito pelo Arizona e ex-prisioneiro de guerra no Vietnã, telefonou para Obama a fim de felicitá-lo e elogiou a campanha inspiradora e inédita realizada pelo adversário.

"Chegamos ao final de uma longa jornada", disse McCain a simpatizantes dele. "Peço a todos os norte-americanos que me apoiaram que se juntem a mim não só em cumprimentá-lo, mas em oferecer nossa boa vontade ao nosso próximo presidente."

Negros e brancos comemoraram juntos, na frente da Casa Branca, a vitória de Obama e o encerramento iminente do governo Bush. Carros lotaram as ruas da região central da capital -- os motoristas soavam suas buzinas e debruçavam-se para fora dos veículos.

Milhares mais participaram das celebrações de rua na Times Square, em Nova York, e em cidades de todo o país.

"Este é o evento político mais significativo da minha geração", afirmou Brett Schneider, de 23 anos, que estava na multidão formada em Chicago para ouvir o discurso da vitória de Obama.

"Esta é uma grande noite. Uma noite inacreditável", afirmou o deputado John Lewis, da Geórgia, que em 1968 foi brutalmente agredido pela polícia de Selma, Alabama, durante uma passeata pelo direito ao voto para os negros.

O pastor Jesse Jackson, ativista do direitos civis e duas vezes pré-candidato a presidente na década de 1980, participou da festa em Chicago, com lágrimas nos olhos.

PROMESSAS

Numa campanha dominada até o final por notícias ruins na economia, a liderança de Obama e suas propostas sobre como lidar com a crise desequilibraram a disputa a seu favor. As pesquisas de boca-de-urna mostraram que a economia era a principal questão da campanha para 60 por cento dos eleitores.

Obama promete reduzir impostos para norte-americanos de classe média e baixa, cobrando mais dos que ganham acima de 250 mil dólares por ano. Com esse discurso na área de economia, conquistou Estados onde há um grande eleitorado operário, como Ohio.

O democrata assumiu a liderança da corrida no mês passado, quando a crise financeira aprofundou-se e quando se saiu bem em três debates nos quais McCain não conseguiu convencer em respostas a dúvidas de parte do eleitorado.

A avaliação de Obama a respeito do enfrentamento da crise econômica parece ter feito com que a corrida pendesse a seu favor.

Além de Ohio e da Flórida, Obama venceu na Virgínia, em Iowa, no Novo México, em Nevada e no Colorado -- todos Estados dos quais Bush saiu vencedor em 2004. A derrota de McCain na Pensilvânia eliminou a melhor chance do republicano em conquistar um Estado tendencialmente democrata.

A votação encerra uma épica campanha de dois anos, marcada por uma rápida ascensão de Obama, até então um obscuro senador recém-eleito, e uma acirrada disputa pela indicação partidária contra a senadora Hillary Clinton.

Paralelamente a isso, McCain recuperou uma candidatura que parecia perdida e conseguiu a indicação republicana, chegando a liderar as pesquisas em alguns momentos --até que em setembro a crise em Wall Street inclinou a balança definitivamente em favor de Obama, mais bem avaliado pelo eleitorado em questões econômicas.

A campanha republicana ainda tentou reagir acusando Obama de ser "socialista" por querer redistribuir renda, ou de ser "camarada" de terroristas.

Mas, num ambiente de hostilidade aos republicanos, McCain sofreu para se distanciar de Bush. As pesquisas de boca-de-urna indicam que três quartos dos eleitores acham que os EUA caminham no rumo errado.

Na disputa pelo Congresso, os democratas também conseguiram bons resultados. Dificilmente, porém, conseguirão "roubar" nove vagas dos republicanos no Senado, formando a cobiçada "superbancada" de 60 integrantes, o que impediria a oposição de realizar obstruções regimentais.

Ainda há algumas disputas em aberto, mas os democratas preservaram todas as suas vagas e já tiraram cinco dos republicanos --inclusive de políticos de destaque, como John Sununu (New Hampshire) e Elizabeth Dole, esposa de Bob Dole, candidato republicano a presidente em 1996.

Os democratas também ampliaram sua bancada na Câmara dos Representantes (deputados) em cerca de 25 cadeiras, o que lhes garante uma ampla maioria.

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