Os senadores Barack Obama e John McCain procuraram enfatizar as suas distintas concepções de governo em um evento voltado para a comunidade hispânica, nesta terça-feira, em Washington. Os pronunciamentos dos virtuais candidatos democrata e republicano à presidência dos Estados Unidos se deram durante a 79ª convenção da Liga Unida de Cidadãos Latino-Americanos (Lulac, na sigla em inglês), entidade de defesa de direitos de hispano-americanos que, com 115 mil membros, é uma das maiores organizações latinas dos Estados Unidos.

Os discursos dos dois políticos no Hotel Hilton ocorreram com um intervalo de mais de quatro horas.

McCain subiu ao palco pouco após as 12h (13h, de Brasília). O pronunciamento do senador republicano foi recheado de promessas de auxílio a pequenos negócios, redução da carga fiscal e criação de novos empregos.

''Os pequenos negócios são o motor do mercado de trabalho da América, e eu tornarei mais fácil que eles possam crescer e criar novos empregos. Existem 2 milhões de negócios cujos proprietários são latinos'', afirmou o senador, frisando que é preciso adotar uma política fiscal capaz de ajudar tais companhias a crescer.

Livre comércio e impostos
Sem citar o rival, McCain enfatizou ainda sua defesa do livre comércio e do corte de impostos, em contraste com os supostos protecionismo e defesa de maiores impostos por parte de Obama e dos democratas.

''A economia global está aqui para ficar. Nós não podemos criar paredes para impedir a entrada da competição internacional, e nós não devemos querer fazê-lo. (...) Por isso, eu rejeito as falsas virtudes do isolacionismo econômico. (...) Derrubar barreiras para o comércio cria mais e melhores empregos e salários mais altos.''
O contraste entre o pronunciamento de McCain e o de Obama não ficou apenas no tom e nas canções que saudaram suas entradas e saídas do palco. McCain foi apresentado com uma salsa, enquanto o democrata subiu ao palco quando uma versão de Berimbau, de Baden Powell, era tocada ao fundo.

Enquanto McCain por vezes arrancou aplausos calorosos, o democrata despertou a costumeira reação similar a de se estar em um concerto de rock, com urros da platéia e coros de "Si, se puede".

Imigração prioritária
O bordão, em sua versão inglesa, "Yes, we can", é o marco da campanha de Obama e foi uma tradução da versão original em espanhol cunhada pelo líder sindical hispânico Cesar Chávez, durante a greve de fome que ele promoveu em 1972, no Arizona, em defesa dos funcionários da indústria agropecuária.

O mote, coincidentemente, foi usado em diversos eventos em defesa da reforma imigratória, o tema utilizado por Obama em seu pronunciamento para atacar o rival republicano.

''Eu sei que o senador McCain costumava ir contra seu partido no tema de imigração, lutando por um plano amplo de reforma imigratória, e eu o admirava por isso. Mas quando ele começou a buscar a indicação de seu partido, ele abandonou a sua corajosa postura e disse que não apoiaria o seu próprio projeto de lei se ele fosse votado.''
O senador acrescentou que o tema estará no topo de sua agenda, se chegar à Casa Branca. ''Eu lutei com vocês no Senado por reformas imigratórias abrangentes. E eu farei disso uma alta prioridade em meu primeiro ano como presidente.''
Obama frisou que ''esta eleição poderá ser decidida pelos eleitores latinos. A cada quatro anos, algumas das disputas mais acirradas acontecem na Flórida, Colorado, Nevada e Novo México, Estados com grandes comunidades latinas''.

'Dois lados da história'
A estudante de relações internacionais Ashley Garcia assistiu aos pronuciamentos dos dois políticos, ''porque é importante conhecer os dois lados da história'', mas sua preferência é por McCain.

''Ele é mais experiente. Obama é uma ótima pessoa, mas não creio que ele será capaz de implementar as políticas que pretende. McCain defende o livre comércio, e Obama, um protecionismo de eras atrás''.

A fila gigantesca dos que aguardavam para entrar no Hilton e o entusiasmo da platéia fizeram com que a própria Ashley reconhecesse que ''era um peixe fora d'água''. Os demais hispânicos na platéia pareciam mais afeitos à mensagem do democrata.

É o caso de Jason Garcia, funcionário de uma ONG e participante do grupo "Latinos for Obama". Garcia disse que seu apoio ao senador se deu devido à forma com que ''ele expressa a sua esperança".

"Ele é passional, alguém que nos faz voltar a acreditar, como John Kennedy'', disse. E também, afirmou, porque a própria história de vida do senador, filho de uma americana e um africano nascido no Quênia, ''é algo com o qual minorias étnicas se identificam''.

Dados do insituto de pesquisas Pew Hispanic Center mostram que mais de 57% dos eleitores hispânicos atualmente se dizem democratas, ante 23% que se definem como republicanos.

Uma pesquisa do instituto Gallup realizada ainda em maio, um mês antes de Obama ter obtido o número de delegados para se sagrar o provável candidato democrata, mostrou que o democrata tinha a preferência de 62% dos eleitores latinos registrados nacionalmente, ante 29% de McCain.

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