Obama deve focar emprego e combate ao déficit em discurso anual

Por Caren Bohan e Matt Spetalnick WASHINGTON (Reuters) - O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, irá reformular suas prioridades no seu importante discurso à nação nesta quarta-feira, dando mais ênfase à criação de empregos e ao combate ao déficit, enquanto tenta superar seu pior momento político em um ano de governo.

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O pronunciamento anual do Estado da União, que ele deve fazer perante o Congresso a partir das 21h de quarta-feira (0h de quinta-feira em Brasília), ocorre dias depois da derrota do seu Partido Democrata em uma importante eleição suplementar para o Senado, num resultado que ameaça a aprovação de projetos prioritários para o governo, como a reforma da saúde e a nova regulamentação do setor financeiro.

A popularidade de Obama, outrora estratosférica, também está em baixa.

Sob pompa e circunstância, Obama tentará mostrar à audiência televisiva do horário nobre que compreende as agruras econômicas da população e, por isso, irá propor novos planos para a criação de empregos, novas restrições ao setor financeiro e mais créditos fiscais para famílias de classe média.

O discurso deve refletir uma realidade política profundamente diferente da época da posse de Obama, há um ano, quando ele acabava de ser eleito com promessas de grandes mudanças em Washington. Agora, ele luta para salvar uma pauta parlamentar que ficou ameaçada pela vitória dos republicanos na eleição para uma vaga do Senado em Massachusetts.

Ele deve apresentar possíveis saídas para o impasse na reforma da saúde, que pode ser barrada no Senado agora que o governo perdeu a maioria qualificada de 60 votos.

"O presidente vai explicar por que acha que o povo norte-americano está irritado e frustrado", disse o porta-voz Robert Gibbs ao programa "Good Morning America", da rede ABC.

A reforma da saúde era o principal objetivo doméstico de Obama no começo do mandato, mas ultimamente ele tem transmitido sinais ambíguos sobre se pretende insistir em uma reforma abrangente ou se contentar com uma versão reduzida.

Outra prioridade doméstica, a limitação às emissões de gases do efeito estufa, deve ficar em segundo plano por enquanto, embora Obama deva citar o tema em seu discurso.

Este é um ano de eleição parlamentar, na qual muitos parlamentares governistas temem enfrentar dificuldades para renovar seus mandatos. Para minimizar esse cenário, o presidente deve enfatizar temas como a criação de empregos, o controle de gastos públicos e uma maior regulamentação financeira.

Ele irá salientar melhoras na economia e tentará afastar as críticas de que perdeu o foco por causa da obsessão com a reforma da saúde. Na época da posse de Obama, os EUA perdiam centenas de milhares de postos de trabalho por mês, enquanto agora o cenário começou a se recuperar, embora o desemprego ainda seja superior a 10 por cento.

PREOCUPAÇÃO COM O DÉFICIT

Reagindo à pecha de gastador imputada pelos republicanos, Obama deve propor um congelamento de três anos em muitos programas domésticos que provocam gastos públicos, além de esboçar outras medidas para controlar o déficit orçamentário dos EUA.

Mas o congelamento de gastos não será generalizado. Para a educação, por exemplo, haverá um aumento de 6,2 por cento no orçamento deste ano.

Obama também deve sugerir a criação de uma comissão bipartidária para recomendar como será possível controlar o déficit, que subiu a 1,4 trilhão de dólares no ano fiscal de 2009.

"O presidente deixou claro que acredita que precisamos de um processo bipartidário para ajudar a colocar a nação de volta em um caminho fiscalmente sustentável. Ele terá mais a dizer a respeito disso hoje à noite", disse Kenneth Baer, porta-voz do Escritório de Gestão e Orçamento da Casa Branca.

Antecipando a reação republicana, o líder da oposição no Senado, Mitch McConnell, sugeriu a Obama que "deixe de lado a agenda do último ano, de governo grande e grandes gastos, se mova para o centro e adote a abordagem sensível para os nossos problemas, passo a passo, que os americanos estão pedindo."

A previsão é de que o déficit atinja 1,35 trilhão de dólares em 2010, perto do recorde em termos de percentual do PIB desde o fim da Segunda Guerra Mundial, segundo o Escritório Orçamentário do Congresso.

Num gesto simbólico, Obama deve propor também um congelamento salarial para altos funcionários da Casa Branca e outros ocupantes de cargos políticos, o que gerará uma economia de 4 milhões de dólares no ano fiscal de 2010, segundo uma fonte de primeiro escalão do governo.

Funcionários da Casa Branca negam a intenção de um "recomeço" do governo Obama, mas especialistas alertam que o presidente precisa corrigir o rumo para evitar que seu partido sofra uma derrota esmagadora na eleição de novembro.

Depois do discurso, Obama leva sua mensagem reajustada para a estrada. A primeira escala será na quinta-feira em Tampa, na Flórida, onde anunciará 8 bilhões de dólares para projetos ferroviários de alta velocidade, o que, segundo a Casa Branca, poderá criar ou salvar dezenas de milhares de empregos.

O trecho do discurso de Obama sobre a política externa deve ser curto e focado nas guerras do Afeganistão e Iraque. "Ele não irá usar esta ocasião para lançar nenhuma nova iniciativa de política externa," disse William Galston, acadêmico do Instituto Brookings e ex-consultor político do presidente Bill Clinton. "Já há muitas por aí, em vários estágios de progresso ou não progresso."

(Reportagem adicional de Steve Holland e Ross Colvin)

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