Marga Zambrana. Pequim, 13 ago (EFE).- Escavadeiras já começaram a destruir a cidade mais antiga da China, Kashgar, uma joia arquitetônica da Rota da Seda que, com quase dois mil anos de história, é epicentro da etnia que protagonizou no mês passado violentos distúrbios.

Habitada hoje por quase meio milhão de pessoas, 90% delas uigures, Kashgar era o oásis mais importante na rota comercial que uniu Xian e Istambul a partir do século II a.C. Hoje não é apenas uma das relíquias da etnia turca, mas o patrimônio cultural vivo mais antigo e rico da China.

Os uigures, turcomanos que começaram a chegar na região no século IV a.C., se beneficiaram desse comércio e transformaram a cidade, que tem metade de seu território no deserto, em uma das mais prósperas e ricas da Ásia Central.

A reforma da labiríntica parte antiga de Kasghar, cujas construções de tijolo de adobe sobreviveram 1.700 anos e foram louvadas por Gengis Kan e Marco Polo, envolve também o realojamento dos 220 mil uigures que a habitam, e o fim de seu modo de vida, que permaneceu intacto durante séculos.

As autoridades, que iniciaram a demolição em fevereiro, alegam que é necessário reconstruir a cidade por estar localizada em uma área sísmica, para modernizar a vida de seus habitantes e conseguir, assim, a suposta "harmonia social" proclamada pelo presidente da China, Hu Jintao.

"É uma tragédia para o patrimônio cultural", disse à Agência Efe o professor de arquitetura Luo Deyin, da Universidade Tsinghua de Pequim.

"Talvez os realojados vivam melhor, talvez melhorem a infraestrutura e a provisão de água potável e de desaguamentos. Mas o problema é que já não existirá mais Kashgar, uma das cidades mais importantes da Rota da Seda", explica.

Para a Associação Uigur Americana, a destruição de Kashgar "faz parte de uma campanha intensiva para diluir a cultura única dos uigures e sua identidade", um extremo apoiado pelo relator da ONU contra a tortura, Manfred Nowak.

A cidade antiga, segundo a associação, é um emaranhado de ruas labirínticas que preservaram a língua, a música e a gastronomia uigur durante séculos, mas também uma área difícil de ser controlada pelo Partido Comunista da China (PCCh).

Sua destruição é uma forma simples de resolver um problema étnico complexo, mas até especialistas chineses estão escandalizados.

"O problema é que nunca se viu no mundo uma cidade ser destruída e reconstruída para prevenir um terremoto", afirma Luo, que cita como exemplo as regiões históricas italianas.

Situada na região ocidental autônoma de Xinjiang, onde hoje mais da metade dos 20 milhões de habitantes são chineses, Kashgar acolhe 17 grupos étnicos e é considerada o ponto onde a Ásia Oriental converge com a Central.

Em 5 de julho, foram geradas revoltas étnicas sem precedentes na capital provincial, Urumqi, com cerca de 200 mortos, segundo números oficiais. Os uigures, porém, dizem que Pequim censura o número de muçulmanos mortos pelo Exército.

Hoje, Urumqi e Kashgar estão tomadas por militares chineses e as escavadeiras continuam demolindo a segunda, proposta para fazer parte do patrimônio da Unesco em 2002, mas ainda pendente de aprovação.

He Shuzhong, funcionário e fundador da ONG Centro para a Proteção do Patrimônio, destaca que hoje "restam poucas cidades antigas na China, e Kashgar é uma delas".

"Kashgar representa a cultura árabe e islâmica na China. Tem tanto valor que não conservá-la será um gesto errôneo e estúpido", comentou He, que reconhece o perigo dos terremotos para a região, mas que acha que a demolição feita dessa forma não se justifica.

Para ele, a destruição de Kashgar é "terrível", "simplista e brutal", e mudará "sem dúvida o modo de vida dos uigures, seus sentimentos, seu pensamento, sua personalidade e sua religião".

Embora Pequim vincule no conflito étnico em Xinjiang grupos independentistas uigures a células terroristas, para especialistas como o professor Simon Shen, da Universidade de Hong Kong, o problema "está nas políticas étnicas".

Por um lado, os uigures não se sentem com uma autonomia real, apesar do investimento da China para desenvolver a região. Por outro, os colonos chineses acham que o Governo cede demais perante os uigures. "Ambos os lados estão insatisfeitos", resume Shen. EFE mz/rr

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