O véu e a mulher na vanguarda da crise social no Irã

Papel social da mulher iraniana entra para o centro do debate político

EFE |

Helia, de 30 anos, trabalha em uma agência de viagens em Teerã e nos últimos anos ajustou seu 'mantoo' para desenhar seu corpo e colocou o véu para trás, deixando assim entrever seu cabelo comprido negro.

Gila, olhos escuros e gestos austeros, vai diariamente à Universidade de Teerã com o tradicional 'chador' que a cobre da cabeça aos pés, apaga suas formas e oculta sua sensualidade pecaminosa que os muçulmanos atribuem ao cabelo feminino.

Vizinhas em um dos bairros mais populares do centro-sul da capital, as duas representam os dois extremos de um conflito social que se aguçou nas últimas semanas e que evidencia a profunda divisão no país desde a polêmica reeleição do presidente, Mahmoud Ahmadinejad.

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Mulheres iranianas com roupas modernas, maquiagem e cabelo tingido são fotogradas durante protestos contra reeleição de Ahmadinejad (junho/2009)

Questões como o véu, mas, sobretudo, o papel social da mulher - alçada à vanguarda do movimento de protesto durante as manifestações posteriores às eleições -, entraram para o centro do debate político.

Há um mês o Ministério do Interior iniciou uma campanha para "salvaguardar a moralidade" e corrigir o que denominou o "uso errôneo do hijab (o tradicional lenço árabe)".

Em nome da "decência islâmica", a polícia de Teerã e de outras grandes cidades saiu às ruas com a missão de deter as mulheres que mostrem seus cabelos, usem muita maquiagem, caminhem "como modelos" ou usem 'mantoos' curtos ou justos demais.

Também perguntam aos casais que estão sozinhos se são casados ou parentes. O castigo é uma multa que em muitos casos supera os mil euros, em um país no qual o salário médio ronda os 500 euros.

Em mais um arrombo de populismo, e apesar da norma vir do Ministério do Interior, Ahmadinejad condenou na semana passada "esta ação, que não pode ser bem-sucedida". "O governo não intervém nisto. Consideramos que perguntar sobre a relação entre duas pessoas é um insulto. Ninguém tem direito de fazer isto", afirmou durante uma entrevista na televisão estatal.

Suas palavras geraram uma saraivada de reprovações entre os clérigos mais conservadores, que as interpretam como uma concessão do presidente ultraconservador à imoralidade. "Embora tenhamos muitos problemas políticos e econômicos, a moral não pode ser esquecida sob o pretexto de que há problemas mais urgentes", disse o aiatolá Ahmad Janati.

Sentada em um parque do norte da capital, Gila observa com desdém uma mulher maquiada, com o cabelo pintado e o véu caído que passa perto do seu banco. "Acho que este tipo de moda deve ser castigado. A mulher deve ser casta e observar as normas porque se não seremos castigados", afirma.

Desde que a revolução islâmica venceu em 1979, o Irã impõe a todas as mulheres, nacionais ou estrangeiras, um severo código de vestuário. Biquínis e minissaias desapareceram dos guarda-roupas, substituídos pelos negros e impessoais 'chadores'.

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Muitas mulheres muçulmanas ainda usam o tradicional "chador", véu negro que cobre todo o corpo

Aquelas que se maquiavam ou resistiam podiam sofrer as represálias da polícia, que incluíam métodos como colocar as mãos em sacos de baratas vivas ou esfregar com algodão a maquiagem. A norma começou a relaxar durante o mandato do ex-presidente reformista, Mohamad Khatami (1997-2005).

Primeiro o branco e depois o resto das cores começaram a aparecer nas roupas das mulheres, que pouco a pouco substituíram o 'chador' e o 'maqnae' (espécie de capuz negro fechado no pescoço) pelo tradicional hija árabe.

As camadas negras de tecido deram lugar a coloridos lenços, que com os anos diminuíram e foram ajustados, enquanto a maquiagem retornou, às vezes de forma exagerada.

"Acho que é uma tentativa inútil. As mulheres entenderam que esse é um terreno para a luta pelas liberdades. Foram muito decididas e seguirão sendo, apesar das pressões", afirma um sociólogo iraniano que por segurança prefere não ser identificado. "Foi aberta uma porta de liberdade e agora é difícil fechá-la. São outros tempos, com uma população jovem que tem expectativas diferentes das que havia há 30 anos. E as mulheres se colocaram à frente dessa luta", acrescenta.

Essa é uma uma tendência que espanta os mais retrógrados, que veem nela uma ameaça à segurança nacional até a origem da fúria da natureza. Dias antes a campanha policial começar, o clérigo Kazem Sedighi assegurou que a falta de castidade no vestir "leva os jovens ao mau caminho, a corromper sua castidade, e propaga o adultério, o que aumenta o risco de terremotos".

"Não, não as prisões não nos assustam", explica Helia sentada em um conhecido café do norte de Teerã. "Acho que faz parte da nossa liberdade. Eu respeito as que querem usar o 'chador', por isso acho que deveriam respeitar também o direito de cada um de se vestir como quiser", afirma.

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