O tom dos números

Barack Obama tem os números: mais da metade dos delegados convencionais, mais vitórias em primárias e caucus, mais vitórias em Estados. Ela tem um argumento.

BBC Brasil |

Com os votos dos Estados de Michigan e Flórida, até agora banidos porque anteciparam as datas das primárias, ela teria maioria do voto popular e estaria eleita numa eleição nacional com 300 votos no colégio eleitoral. São necessários 270 para ser presidente. Obama não tem este número.

Argumento forte, mas o partido democrata corre o risco de perder a eleição se seu candidato for escolhido apenas na convenção em Denver e Hillary Clinton receber a indicação do partido. E também corre o risco de perder se indicar um candidato que não consegue a maioria do voto branco nem das mulheres nem dos velhos. Uma enrascada.

O contra-argumento é que os números não são imóveis e Obama, com apoio de Hillary, será capaz de conquistar os votos de Estados decisivos como Ohio, Pensilvânia, Virgínia Ocidental, Flórida, Kentucky e Michigan.

O senador vai vencer porque é o candidato que inspira mudanças. Que mudanças? Ele acabou de votar a favor dos subsídios para fazendeiros, uma lei deficitária e retrógrada. McCain votou contra e o veto de George Bush não será suficiente para derrubar a aprovação da Câmara e do Senado. Uma lei que vai custar US$ 30 bilhões ao contribuinte americano, vários países pobres e emergentes, entre eles o Brasil.

A renda dos fazendeiros americanos cresceu 56% nos últimos dois anos. Vão bem, obrigado, mas os subsídios vão sustentar plantadores de todos os tipos de culturas. Entre os mais beneficiados serão os açucareiros. O governo vai comprar açúcar pelo dobro do preço do mercado e revender com um prejuízo de 80%. Os preços de alimentos vão subir e aumentar a fome na África.

Os candidatos democratas recebem hoje 60% das contribuições dos lobistas, entre eles da indústria de energia, que conquistaram inclusive o voto de Barack Obama.

O senador McCain, que também faz uma campanha como candidato contra Washington e favor de mudanças, em especial contra as leis que favorecem os lobistas, está atolado até o pescoço na grana deles. Um dos principais chefes da campanha de McCain, Rick Davis, era um lobista que parou de defender interesses de empresas, a maioria estrangeira, há dois anos, para trabalhar para McCain.

Ente outras conexões suspeitas, ele armou um encontro, na Suíça, do senador com Oleg Derispaska, um empresário russo proibido de entrar nos Estados Unidos por causa de suas relações com o crime organizado na Rússia.

Pelo menos quatro dos principais dirigentes da campanha do senador faziam lobby para empresas e países estrangeiros, entre eles, Arábia Saudita, Albânia, Macedônia, Croácia, Taiwan e outros.

A senadora também não é pura. As conexões do marido, que poderia ser chamado de lobista, inclusive de empresas brasileiras, podem ser comprometedoras, mas continuam enrustidas e ela está com uma dívida de mais de vinte milhões de dólares.

O cenário é sombrio para todos os candidatos. Entre 2000 e 2006, a economia do país cresceu 15% mas a pobreza aumentou, a renda das famílias diminuiu, os preços de produtos essenciais aumentaram acima da média. Os muito ricos ficaram mais ricos. O custo das guerras no Iraque e Afeganistão entra nos trilhões.

A vitória decisiva da senadora em Kentucky e a do senador Obama no Oregon não mudam o cenário da campanha, embora ele tenha atingido um número simbólico: mais da metade dos votos dos delegados convencionais.

A novidade é o tom dos candidatos democratas: nenhum ataque dos dois adversários nos últimos comícios nem nos discursos depois das vitórias da terça-feira. O partido sairá unido. O fogo é no republicano.

Barack Obama está convencido de que será o candidato. A senadora promete que vai lutar até o fim, mas o tom dela é cada dia mais conciliatório e acomodado com a derrota em 2008. Atrás dos bastidores, fala-se num acordo para cobrir as dívidas de campanha da senadora, o que não seria novidade numa eleição americana.

Cada dia tudo fica mais como antigamente. Vamos começar a falar sobre 2012.

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