O sonho que virou pesadelo na Espanha

Assim como muitos outros brasileiros, o matogrossense Itamar Rodrigues dos Santos veio para a Espanha há cerca de três anos com a intenção de buscar uma vida melhor para ele e sua família. Durante este tempo, ele trabalhou como operário de construção, fazendo empreitas e, muitas vezes, contratado por outros empreiteiros.

BBC Brasil |

Depois de levar alguns golpes e perder boa parte de suas economias, Itamar acabou recorrendo à Organização Internacional para a Migração para conseguir voltar para casa.

No último dia 9, ele, a mulher e as duas filhas voltaram para o Brasil, onde Itamar pretendia trabalhar no campo. Ele contou sua história à BBC Brasil.

"Vim para cá buscar uma vida melhor para minha família, como a maioria dos brasileiros, mas agora a questão do trabalho ficou meio complicada.

Escolhi a Espanha porque o cunhado do cunhado da minha mulher tinha um conhecido que estava trazendo gente para cá, dizendo que tinha uma empresa aqui oferecendo contratos de três anos com salário fixo. Vim num grupo com mais umas oito pessoas.

Mas o coiote desapareceu, nem no aeroporto foi buscar a gente. Pegou o dinheiro da gente no Brasil e sumiu, nunca mais ninguém viu.

No Brasil eu trabalhava com gado, mas aqui, sempre trabalhei na construção.

No começo foi muito difícil encontrar emprego, porque eu não conhecia ninguém. Quinze dias depois, encontrei um brasileiro que me deu serviço. Trabalhei 25 dias com ele, mas só recebi por três dias. Pelo menos, com o trabalho fui conhecendo outras pessoas, que acabaram me arrumando outros trabalhos.

Sempre estive ilegal aqui, nunca tive documentos. Fui preso quatro vezes por causa disso. Tenho quatro cartas de expulsão, mas recorri e consegui resolver tudo.

O último serviço que fiz foi no dia 25 de janeiro. Antes, sempre que terminava um serviço já tinha outro começando, um orçamento.

Decidi voltar, um pouco, por causa da saudade da família, mas também, porque só a mulher trabalhando, é complicado. Não sei se é machista, mas me sinto um pouco acanhado. Passamos três meses, só ela trabalhando. Para mim, lá é melhor. Vamos trabalhar os dois juntos, cabeça para cima e tocar o barco.

Ainda não tenho um plano, tenho que chegar lá para ver. Temos que chegar lá, esfriar a cabeça um pouquinho... vamos ver. Mas a idéia é trabalhar no campo.

Consegui juntar um dinheirinho aqui, só que num dos trabalhos, os donos da empresa ficaram me devendo 5 mil euros. Eu tive que pagar as pessoas que eu tinha contratado, então, tive que usar minhas economias. Perdi dinheiro em outro contrato também.

Cheguei a levar o caso para a Justiça, mas como não tenho documentos, perdi. Se você vai a uma delegacia fazer uma denúncia, te pedem o passaporte e, se vêem que você está ilegal, você vai preso.

Ultimamente, vinha sentindo mais preconceito por ser ilegal. Quando fazia um orçamento, me perguntavam se eu tinha firma, papéis. Você diz que não e eles ficam com medo, porque se você contratar um ilegal aqui, pode pagar uma multa alta. Ao mesmo tempo, nós, como ilegais, podemos fazer um preço mais barato, pois não pagamos impostos, então, os outros empreiteiros ficam meio assim...

A vinda para cá foi uma escola que nunca tive. Aprendi muito, a gente aprende a dar valor ao que tem em volta, ao que tem no país, aos amigos, à família, porque você chegar a um país em que não conhece ninguém, em que não fala o idioma, é complicado.

Se não tivesse a crise e eu não tivesse perdido o emprego, eu ficava. Eu já não tenho mais futuro mesmo, o meu negócio é trabalhar. Mas eu penso demais no futuro das minhas filhas. Se eu ficasse aqui mais uns 10 anos, para elas, já estaria tranqüilo. Elas teriam um estudo bom, que no Brasil não posso dar, e poderiam fazer uma faculdade. No Brasil, não.

Meu conselho hoje, para quem está no Brasil, é: se você tem o seu emprego, sua casinha, ou se está pagando sua casinha e tem um salário que dá para segurar o dia a dia, o meu conselho é: fique aí. Não vem não porque, agora, se você acha que no Brasil está ruim, eu falo para você que aqui está pior. Eu passei três anos e sei."

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