O Rio sobe ao pódio e desce a ladeira?

Por Ivan Lessa Não gosto dessa mania de brasileiro ficar falando mal do Brasil. Onde estou no estrangeiro, 75% das referências são elogiosas ao Brasil atual.

BBC Brasil |

Com a escolha do Rio de Janeiro para sede das Olimpíadas de 2016, só tenho visto e ouvido, em todos os meios de comunicação, loas e mais loas. Como, apesar de ter nascido em São Paulo, sou carioca por tempo vivido e muito bem vivido na Cidade Maravilhosa.

Sempre soube que nós, brasileiros, e principalmente os cariocas, somos ultra-críticos em relação a nós mesmos, nosso país, nossas metrópoles. Felizmente nossa imprensa não dá pelota para essa gente de maus bofes e fígado podre ou simplesmente galhofeira. Há uma hora em que se deve cantar não o Hino Nacional, mas a harmonia interior da seriedade. Mesmo a cançoneta de André Filho, adotada como Hino Carioca, deve ser meditada e não modulada. Precisamos de serenidade e andor mais devagar.

Nossa imprensa, carioca e nacional, de vez em quando vai e joga seu balde de água fria na festa que vivemos de uns anos para cá, Rio e país. Felizmente essas notas, quase sempre mesquinhas, para não chamar de espírito do porco, não ganham destaque na imprensa, que conhece melhor nossos paladares e temperos.

Dou alguns exemplos de dados divulgados por fontes supostamente abalizadas e fidedignas logo depois de nossa já mundialmente consagrada olímpica escolha. Ao que parece, alguém andou se queimando em alguma repartição oficial. Pergunto: despeito? Por quê?
Segundo o Centro de Políticas Sociais (CPS) da Fundação Getúlio Vargas, a taxa de evolução da pobreza no Rio de Janeiro aumentou 89,11% nos últimos três mandatos municipais. A Fundação usou como linha de pobreza o cálculo internacional de US$1 por dia. Ah, é? "Linha de pobreza" em dólar? Só se for "linha de passe".

O índice, sempre segundo a FGV, que era de 3,50% entre 1997 e 199, saltou para 6,61%. Salto, em distância, altura e tríplice, vocês vão ver daqui a 9 anos, senhores "Fundadores Gegê Vargianos".

Como se não bastasse, nossa olímpica cidade será também uma das sedes da Copa do Mundo de 2014. O que é para se falar, e até mesmo escrever, enchendo a boca, para não falar dos bolsos e das barrigas da gente boa carioca. O Rio está na berlinda e espera-se uma reação nos indicadores sócio-econômicos. Quem o diz são os divulgadores das pouco auspiciosas notícias e dados neste espaço citados. Dão-nos uma mísera colher de chá. Preferimos um bom cafezinho com papo ali na esquina, nossas amizades.

Tem mais. Ora, se tem. Esse pessoal quando lança o dardo do pessimismo ou arremessa o peso da má vontade, está de olho na medalha de ouro nos 100 aziagos metros rasos. Na mesma pesquisa, usando como base o parâmetro da Classe E da FGV - segmento dos que ganham menos de R$ 137 por mês - a cidade fluminense também não melhorou muito: ocupa a 16ª. posição entre as 27 capitais estaduais.

Marcelo Neri (gravem esse nome e cuidado com ele), da FGV, claro, economista "responsável" pela "pesquisa" afirma que "o Rio hoje é mais desigual do que o Brasil. Durante os três últimos mandatos de prefeitos, tivemos a maior queda. Qualquer quesito mostra que o Rio está descendo a ladeira nos últimos dez anos. A Olimpíada representa uma oportunidade, um horizonte e um objetivo para a gente."
Ao menos o Sr. Marcelo Neri agita, mesmo desanimado, a bandeirola da esperança. O que não acontece com Luiz Mário Banken, coordenador do Fórum Municipal do Orçamento, que - perdoem o mísero jogo de palavras, que só pode ser influência da companhia - "bota a banca" de que os gastos favoreceram a concentração de renda.

Segundo esse cavalheiro, e lá vão mais aspas para o dito cujo, "os gastos com o Engenhão, no Pan, foram dinheiro público que só favoreceram o Botafogo e as empreiteiras. E dinheiro da população destinado a poucas pessoas, O mesmo vale para os gastos na urbanização da Vila Pan-Americana e na Cidade da Música."
Eu distribuo aspas para essas depressivas e deprimentes figuras como quem distribui convocações para exames de urina após as competições.

Com eles gasto meu latim olímpico: Altius, citius, fortius!

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