O que mostrou Obama nos primeiros 50 dias de seu governo?

Pode ser pouco razoável, prematuro, equivocado e uma medida ruim para prever o futuro, mas todo presidente dos Estados Unidos desde Franklin Delano Roosevelt (1933-1945) teve que enfrentar os primeiros julgamentos sobre seu governo no final de seus primeiros 100 dias no cargo. Barack Obama acaba de completar metade deste caminho (50 dias de governo), mas, como lidera um país totalmente ligado por redes de comunicação no rápido mundo do século 21, parece razoável tirar um instantâneo de como ele tem agido até agora.

BBC Brasil |

O governo de Obama começou sob uma atmosfera estranha, que misturava a euforia de uma enorme barreira racial sendo rompida e uma profunda sensação de desconforto com uma recessão que se aprofunda.

E, apesar de esta sensação de desconforto estar se provando mais duradoura que a euforia do dia da posse, Obama já fez o bastante para sugerir que ele aprendeu com seus antecessores sobre o modo como começar um mandato na Presidência - e também sobre o modo de não fazê-lo.

As lições mais importantes aprendidas por Obama provavelmente vieram direto de Roosevelt, que começou o seu mandato em um passo empolado.

AP

Nos primeiros três meses de seu governo, Roosevelt assegurou a aprovação pelo Congresso de 15 grandes legislações, procurando mostrar aos americanos que Washington tinha a visão e o poder para salvar o capitalismo nos EUA.

Compare isto com a rapidez de Barack Obama desde o início.

O programa de estímulo econômico já é lei, um orçamento que prevê um déficit enorme foi apresentado e um prazo final para a retirada das forças combatentes do Iraque foi colocado.

Ele também se lançou em um projeto para reformar o sistema de saúde dos EUA, aparentemente partindo de um princípio de que se seus problemas são grandes o bastante, eles podem levar a algum tipo de oportunidade.

Além disso, Obama pegou uma ou duas grandes questões simbólicas do governo de George W. Bush e as usou para traçar uma linha de separação entre sua gestão e a de seu antecessor.

Ao anunciar o fechamento do campo de prisioneiros de Guantánamo e o fim do veto ao financiamento estatal a pesquisas com células-tronco embrionárias, Obama sinalizou que, em questões culturais, diplomáticas, morais e políticas, os Estados Unidos serão um lugar bem diferente sob seu governo.

Pode parecer muito cedo para fazer julgamentos, mas é logo depois da vitória que o brilho do poder presidencial está mais forte, e os melhores presidentes costumam capitalizar este momento político. Mas não há como saber o quanto isto irá durar.

Há ainda dois outros pontos onde é possível comparar Obama com Roosevelt. O primeiro é a habilidade para a comunicação.

Roosevelt escrevia elegantemente e falava de modo convincente. Ele utilizou o novo poder do rádio para vender política diretamente para as pessoas. Assim como Obama faz com seus discursos televisionados e por meio da internet.

Outro ponto de comparação, mais nebuloso, é a questão do comportamento.

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Roosevelt, que assumiu em um momento em que a Grande Depressão abalava a confiança e a vitalidade dos americanos, era rigidamente otimista.

Obama - que chegou ao poder em um momento em que muitos eleitores estão desnorteados por um colapso financeiro que mal conseguem entender - irradia competência e confiança.

Ele se agarra à importância de ter um ar presidencial, e já consegue fazer este papel de forma convincente.

Enquanto se preparava para assumir a Presidência, ele se deparou com uma das situações mais complicadas da história.

Ele assumiu o cargo em uma situação com desemprego crescente, uma crise no sistema de saúde, uma infraestrutura esfarelada, o declínio nos gastos dos consumidores, o quase colapso do sistema bancário, além de duas guerras e sinais de problemas em várias regiões delicadas do planeta.

No entanto, sua ousadia política e a segurança pessoal são inequívocas.

O prazer mostrado por Obama ao receber seu herói musical, Stevie Wonder, na Casa Branca, sugere um homem que está confortável no cargo e determinado a colocar sua marca nele.

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Sua mulher, Michelle Obama, até agora conseguiu todas as notas certas como primeira-dama, e os Estados Unidos estão encantados com suas filhas e sua busca por um novo cãozinho de estimação.

A família ocupa as capas de revistas e jornais de uma maneira inédita desde o auge dos Kennedy, no início dos anos 1960, e sua posição na afeição do público parece garantida.

Ainda assim, a questão sobre o que vai acontecer com a economia persegue os Estados Unidos de Obama, apesar de toda sua confiança e segurança.

As bolsas de valores caíram de forma constante desde o dia de sua posse e não há sinais de que elas possam se recuperar em breve.

A grande questão ainda não respondida é se o governo terá ou não uma resposta convincente para a crise bancária, que está no centro desta recessão.

E, além disso, há o déficit.

Os planos de Obama para a economia (que incluem gastos em energias limpas e a expansão do sistema de saúde) envolvem gigantescas quantias de empréstimos e gastos, que precisarão ser pagos no futuro.

É parte do estilo político de Obama tentar antecipar as reclamações dos críticos. Assim, ele já começou a falar como um "falcão fiscal" sobre cortes de empréstimos no futuro.

Mas, a verdade é que ele empurrou o déficit orçamentário para um nível muito inflacionado - US$ 1,75 trilhão -, o que é um fardo colossal mesmo para os EUA.

Assim, em economia, há questões que não serão respondidas em anos, e menos ainda em 100 dias.

Há ainda muitos outros temas sobre os quais nós simplesmente teremos que esperar para ter respostas. Entre eles, questões que vão desde como lidar com o Irã e a Coreia do Norte até o futuro da indústria automotiva nos EUA.

Mas, apesar de tudo, estamos apenas no meio do caminho da marca dos 100 dias.

O julgamento provisório tem de ser que Obama tomou esta tarefa com energia e imaginação. Muitas das dúvidas sobre seu governo estão relacionadas, de um jeito ou de outro, com o tamanho da tarefa que ele herdou.

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