O pânico nosso

Segunda, pânico, terça, calma, quarta, pânico. Quinta, milhares de americanos tiraram US$ 150 bilhões das suas contras e assombraram a Casa Branca.

BBC Brasil |

À noite, saiu o anúncio do pacote salvador.

Sexta, delirante, mas a cabeça esfriou no fim de semana. Segunda, voltou o pânico e novo mergulho no mercado de ações.

Você lê, conversa com analistas, liga a televisão e há um batalhão de economistas à favor do pacote, mas contra o conteúdo. A maioria dos americanos vê o abismo, mas o entusiasmo pelo documento de três páginas e US$ 700 bilhões encolhe de minuto a minuto. O remédio pode ser pior do que a doença.

700 bilhões - o número mais usado já é um trilhão - a critério de Henry Paulson, um homem que veio da Wall Street. O secretário do Tesouro não fuma, não bebe, usa relógio barato, tem paixão pela preservação da natureza e não freqüenta o círculo social de Washington, mas estas virtudes não abafam suas origens de homem da Wall Street.

Quando você filtra as forças contrárias ao pacote há pelo menos cinco obstáculos: quem vai controlar o trilhão? Só o Paulsen?
Quem vai sair ganhando? Os presidentes e executivos dos bancos de investimentos, da seguradora AIG, das casas hipotecárias Fanny Mae e Freddie Mac, entre outros - que afundaram suas empresas vão receber compensações milionárias pagas pelo contribuinte?
Presidente de empresa salvo pelo Estado não merece ganhar mais do que o maior sálario público, US$ 400 mil, do presidente. Imagine que a média destes masters of the universe é de US$ 11 milhões por ano.

E o americano da main street, aquele que vive de salário na pequena cidade, mal empregado ou desempragado, ameaçado de perder a casa, vai receber quanto? Estamos ainda no terceiro obstáculo.

Dinheiro do contribuinte para salvar bancos estrangeiros? Foi uma das piadas do dia.

O quinto obstáculo vem dos conservadores republicanos. Dane-se a Wall Street.

Os gananciosos vão para o abismo? Boa viagem. E não são opinões de malucos ou marginais da extrema direita. O próprio McCain não gosta da idéia da adminstração dos bilhões controlados pelo secretário do Tesouro, sem supervisão.

Mas não é só uma questão de princípio do republicano. O senador era inimigo da regulamentação até a semana passada, quando ele se atolou no infeliz comentário de que a base da economia americana era sólida.

Estava empatado com o Barack Obama nas pesquisas. Agora está cinco pontos atrás, põe a boca no mundo contra o presidente Bush, contra a Wall Street e contra Barack Obama e os democratas. A culpa é deles.

Barack Obama falou pouco e no silêncio ganhou pontos. Falta de liderança? Talvez, mas também pode ser bom senso porque se você estivesse aqui acompanhando a crise pela imprensa e pelos economistas estaria tão perdido como o resto do país.

Parece uma contradição que o candidato menos experiente esteja saindo no lucro nesta miserável crise capitalista, mas dois terços do americanos acham que esta crise é filha dos republicanos. McCain não tem como se livrar do próprio partido.

Ontem, os dois candidatos ainda prometiam cortar impostos. Se não sabemos o que vai acontecer com a economia deste país nas próximas 24 horas, como prometer um ano melhor em 2009?
Hoje o presidente Lula estava no feliz mundo dos descolados no lançamento da nova campanha de turismo da Embratur, no hotel Palace em Nova York, para atrair turistas americanos para o Brasil.

Durante o vôo para cá ele veio conversando com o assessor de política internacional, Marco Aurélio Garcia, e outros ministros sobre a crise americana, e ele vê vantagens para o Brasil: "Com uma dívida de US$ 11 trilhões, como os americanos vão continuar pagando subsídios?", disse-me o assessor, citando o presidente Lula.

Não sei se é uma conclusão original do nosso líder cada dia mais popular, mas sei que os cortes do próximo presidente, Obama ou McCain, serão brutais e, mesmo que os americanos não caiam no abismo, de onde vai sair o dinheiro para fazer turismo no Brasil e importar produtos brasileiros?

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