O país vai afundar

A inflação vem, o petróleo vai, o dólar afunda, o Afeganistão se perde, as ações evaporam, dezenas de bancos vão quebrar, ninguém sabe onde está o CITI, a GM voltou para a UTI, o secretário do Tesouro e o presidente do Banco Central avisam que o pior está pela frente, mas os candidatos à Presidência nos prometem um futuro esplêndido, com menos impostos, mais educação, saúde, ar limpo, paz, que mais? Basta perguntar e eles prometem. A PIOR CRISE FINANCEIRA DESDE A GRANDE DEPRESSO, gritam economistas, mas a notícia que dominou os telejornais nesta segunda foi a capa da revista The New Yorker, onde o senador Barack Obama, no Salão Oval da Casa Branca, usa um turbante, Michelle está vestida de guerrilheira, a bandeira americana queima na lareira onde aparece a foto de Osama Bin Laden.

BBC Brasil |

Os dois fazem a saudação dos punhos direitos fechados que se tocam de frente.

Quando os muçulmanos ameaçaram de morte os cartunistas que fizeram humor com Maomé foram criticados como trogloditas reacionários.

Nos Estados Unidos ninguém ainda ameaça a vida dos editores nem do cartunista da The New Yorker, mas republicanos e democratas viram insulto e não sátira na capa da revista.

O cartum, segundo os editores, não foi bem entendido pela inteligência nem pelo "hoi polloi".

A intenção da revista é defender Obama e a mulher Michelle contra fabricações direitistas radicais que alimentam - e ganham eleições - com a política do medo.

Analistas, políticos brancos e, em especial, negros acham que o cartum vai engrossar o número de americanos - neste momento em 10% - convencidos que Obama é muçulmano.

Logo surgiu um novo debate: por que há tantas piadas e deboches sobre a idade de McCain e quase nenhuma sobre a raça do Obama?
Foi nesta segunda-feira, enquanto o debate nacional girava em torno da capa da revista, que Peter Peterson lançou sua campanha: O país vai afundar!
A âncora de Peterson é o documentário I.O.U.S.A. (Estados Unidos, eu devo), que em português não tem o mesmo impacto do inglês.

O objetivo é despertar o país para os monumentais déficits, fiscal e comercial, do país.

Peterson quer que I.O.U.S.A desperte os americanos para as dívidas como An Inconvenient Truth, de Al Gore, despertou o país para a questão do meio ambiente.

Peter Peterson, de 82 anos, é filho de um imigrante grego que chegou pobre em Nebraska e abriu uma lanchonete.

O filho realizou o sonho americano, foi secretário de Comércio do presidente Nixon e conseguiu sair limpo de um governo sujo, mas não deixou marcas fortes.

Cresceu na iniciativa privada, ficou conhecido nos círculos de conferências, publicou livros e, apesar do sucesso, nunca foi readimitido nos corredores de Washington porque costuma falar o que os políticos não querem ouvir: é preciso aumentar impostos, reduzir gastos, consumir menos e poupar mais. Receita socialista.

Peterson se deu muito bem numa tacada ano passado. Com o lançamento das ações do Blackstone Group no mercado ele ganhou US$ 1,8 bilhão.

Decidiu gastar mais da metade, US$ 1 bilhão, para convencer o país que neste momento o déficit é o problema que vai salvar ou afundar os Estados Unidos.

Uma das maiores ameaças vem da próxima aposentadoria de 78 milhões de americanos - os baby boomers - que vai custar três vezes mais do que a economia do país. Perto da aposentadoria do Tio Sam, a brasileira é canjiquinha.

A missão de Peterson é quase impossível. As pesquisas mostram que o déficit federal aparece em sétimo lugar nas prioridades dos eleitores, atrás de economia, educação, emprego, saúde, energia, previdência e guerra do Iraque. A do Afeganistão ainda não pintou.

Na terça-feira a capa da revista New Yorker estava esquecida. A crise dos bancos, a bolsa no índice mais baixo dos últimos dois anos, o preço da gasolina e a crise imobiliária voltaram às manchetes, mas o déficit continua escondido.

O bilhão de Peterson ainda não fez efeito.

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